28 janeiro 2015
Silêncio
Recebi hoje uma dica genial:
Tem atenção ao que te entra na boca e ao que sai de dentro dela.
E se hoje me apetece pouco escrever sobre os alimentos que meto à boca, apetece-me mais escrever sobre o discurso que sai dela.
Foi em silêncio que comecei a ouvir uma voz dentro da cabeça que não é nada simpática. Decidi que é melhor deixar de a ouvir.
É em silêncio que me apercebo da importância que o silêncio tem. Obriga-me a ouvir meus pensamentos. Causa desconforto mas traz algumas soluções.
Faz-me ter vontade de ficar em silêncio todas as vezes que falei com os lábios demasiado perto do coração. Faz-me também vontade de ficar em silêncio quando me apercebo que tenho que ter cuidado com os meus pensamentos pois estou sempre a ouvi-los e mais importante ainda, quando falo, os outros ouvem-nos também. É o metafísico a manifestar-se no físico. Ninguém precisa de comunicação negativa. O silêncio permite-me parar antes de falar e pensar se vale mesmo a pena dizer o que estou a sentir.
O silêncio pode ser tantas coisas e servir para outras tantas. Uma vingança, a ignorância ou uma defesa. Agora é uma questão de sobrevivência. É cansaço com uma pontinha de desistência ou renúncia. Há tanto que eu não posso mudar que desisti de argumentar. Mesmo correndo o risco de ser mal interpretada.
Com grande pompa e solenidade diz-me uma voz cá dentro: "Silêncio que se vai cantar o fado!". E fico calada. Em silêncio a ouvir a dor disfarçada de alguém.
22 janeiro 2015
Estranha forma de vida
Não sei se é sabido, mas gosto muito de Amália. Gosto de fechar os olhos e ouvi-la cantar. Imagino-me numa sala de espetáculos a sentir a sua voz. Nunca tive essa sorte. Conta-me a minha mãe como foi bom ter tido essa oportunidade.
Gosto de ouvi-la e sinto qualquer coisa semelhante ao que sente. Tem qualquer coisa que me faz sentir acompanhada. Têm este poder os grandes artistas. Os grandes pintores, escultores, escritores e os outros todos.
Lembro-me de um questionário que preenchi um dia na Faculdade para ajudar a tese de alguém. Perguntava entre outras coisas se, quando olhava para um quadro ou uma escultura me sentia emocionada, se chorava. Respondi obviamente, que sim, tantas vezes me tinha sentido assim. Ouvi mais tarde uma conversa de corredor, dois colegas de turma a gozar com a pergunta, como se fosse absurda ou ridícula. Enchi o peito de orgulho. Que sorte tinha. De ver e sentir tanta coisa na sensibilidade dos outros.
É consolo dos não-artistas saber apreciar a arte dos outros, já que não temos nada de nosso. Saber ler um livro com prazer, ouvir uma música como se fosse cantada com a nossa alma, ou ver num quadro magnífico tudo o que a vida tem dentro dele.
Não tenho nenhum dom. Sei pouco sobre quase nada. Vivo perdida no meio da gente, cheia de paixão e sigo um coração que não comando. Perdida, desisto às vezes de deixar o coração bater.
Bebo um copo de vinho, leio qualquer coisa e ouço uma canção. E zango-me porque não consigo deixar de correr, mesmo que me faça mal, e o coração não pare de sangrar. Perdi-me já há muito por não reconhecer quem sou. Por ver no espelho uns olhos estranhos fixados nos meus. Alguém que passsou por cá e partiu sabe-se lá para onde, sonhando os meus sonhos, deixando os olhos nos meus, dormindo na minha cama.
Sou como a Amália mas tenho uma convicção. Que o meu cançaso vem apenas pela certeza do que faço é feito apenas por mim.
Gosto de ouvi-la e sinto qualquer coisa semelhante ao que sente. Tem qualquer coisa que me faz sentir acompanhada. Têm este poder os grandes artistas. Os grandes pintores, escultores, escritores e os outros todos.
Lembro-me de um questionário que preenchi um dia na Faculdade para ajudar a tese de alguém. Perguntava entre outras coisas se, quando olhava para um quadro ou uma escultura me sentia emocionada, se chorava. Respondi obviamente, que sim, tantas vezes me tinha sentido assim. Ouvi mais tarde uma conversa de corredor, dois colegas de turma a gozar com a pergunta, como se fosse absurda ou ridícula. Enchi o peito de orgulho. Que sorte tinha. De ver e sentir tanta coisa na sensibilidade dos outros.
É consolo dos não-artistas saber apreciar a arte dos outros, já que não temos nada de nosso. Saber ler um livro com prazer, ouvir uma música como se fosse cantada com a nossa alma, ou ver num quadro magnífico tudo o que a vida tem dentro dele.
Não tenho nenhum dom. Sei pouco sobre quase nada. Vivo perdida no meio da gente, cheia de paixão e sigo um coração que não comando. Perdida, desisto às vezes de deixar o coração bater.
Bebo um copo de vinho, leio qualquer coisa e ouço uma canção. E zango-me porque não consigo deixar de correr, mesmo que me faça mal, e o coração não pare de sangrar. Perdi-me já há muito por não reconhecer quem sou. Por ver no espelho uns olhos estranhos fixados nos meus. Alguém que passsou por cá e partiu sabe-se lá para onde, sonhando os meus sonhos, deixando os olhos nos meus, dormindo na minha cama.
Sou como a Amália mas tenho uma convicção. Que o meu cançaso vem apenas pela certeza do que faço é feito apenas por mim.
09 janeiro 2015
Desentendimentos
Estavam duas chupetas em cima da mesa da cozinha. A Sara apontou para as chupetas toda contente porque lhe pareceram muitas! Entretanto lembrei-me que uma das chupetas estava velha e estragada e sem lhe dizer nada, deitei-a ao lixo. A Sara Pegou na chupeta boa, abriu uma gaveta e atirou-a lá para dentro. Foi ao caixote do lixo buscar a velha, muito zangada, a olhar para mim com cara de má.
Para lhe explicar que a chupeta estava estragada, mostrei-lhe o rasgão. Ela olhou para mim, pegou na chupeta velha e voltou a deitá-la ao lixo. Abriu a gaveta, tirou a chupeta boa e foi para a sala.
Fim da história. É muito mais complexa do que parece à primeira vista.
06 janeiro 2015
O primeiro dia
Ontem foi o primeiro dia. E os primeiros dias são difíceis mas são também os dias em que há mais empenho.
No meu primeiro dia pensei antes de falar. Fiz silêncio sempre que me apetecia dizer o que não era importante. Escolhi sorrir sempre que me apetecia dizer algo desagradável. Falei apenas quando as minhas palavras me iam ajudar a chegar a algum lado. Evitei criticar sem saber a verdade. Encontrei uma situação em que alguém merecia um elogio e perguntei a opinião de um colega em relação a uma decisão que eu tomei, ouvi e gostei da resposta.
Parar de reclamar é MUITO difícil. Perguntei ao colega que partilha o escritório comigo se lhe incomodava muito que eu cantasse. Fico agitada quando estou de boca calada. Não tenho voz de rouxinol mas é bom saber que tenho colegas de trabalho que já me conhecem tão bem que me dão espaço para cantar. Afinal era o meu primeiro dia e apesar de ninguém saber que era o meu primeiro dia, o resultado já se fez ver. Houve alguém que se deixou torturar por saber que eu precisava de relaxar. Ou que preferiu o meu cantar ao reclamar. E considerando que canto mesmo mal, o reclamar deve ser ainda pior.
No segundo dia vou tentar fazer o mesmo. Vou procurar pelo menos uma pessoa que merece um elogio, pedir opinião a alguém, pensar antes de falar e tentar falar o menos que puder. Só não consigo prometer que deixo de cantar. Mas isso hoje não é tão importante. Tenho o escritório só para mim!
04 janeiro 2015
Momentos Extraodinários
E foi assim esta manhã se tornou tudo mais leve, num momento extraordinário, e porque as circunstâncias permitiram.
Volto a sentir a importância de estar sozinha. Não consigo voltar ao modo de funcionamento normal com pessoas à minha volta. E volto mais uma vez a notar que a presença da minha filha não me perturba a necessidade de solidão. Ai!***suspiro*** Que bem foi feita a natureza. Uma mãe que gosta tanto do seu buraco solitário não consegue ver a paz perturbada pela cria. Consigo inclui-la no espaço que tinha criado só para mim. E é assim que fico cada vez mais feliz. Por saber que está tudo muito bem pensado, fomos todos feitos para não nos perturbarmos uns aos outros.
Decidi esta manhã que amanhã vou ser diferente. Pelo menos até ficar cansada outra vez e a precisar de outro Domingo sossegado. Amanhã não vou estar cansada e vou-me lembrar que, já que não consigo ajudar ninguém, pelo menos não os vou prejudicar, que a minha paz depende da paz que dou aos outros e que o silêncio é quase sempre a melhor resposta.
Obrigada Dalai Lama. Hoje já fiz muita coisa. Até amanhã.
30 dezembro 2014
Vida simples
Quantas vezes desejei ter uma vida simples porque há sempre demasiada confusão na minha. E no meio de tanta confusão, alguma criada por mim e outra por outras coisas quaisquer, sinto que a minha vida confusa se tornou demasiado simples. Mas de uma simplicidade que nada tem a ver com a que eu queria.
Eu queria uma vida simples. Que me desse tempo para sonhar, para fazer o que eu gosto e não apenas o que é preciso fazer. Tenho a vida que tenho e aproveito dela o que tem de bom. Mesmo não sendo aquilo que eu queria ter. Aproveito a luz que entra pela sala e o quentinho que sai do corpo da minha filha. Troquei o miminho da minha mãe pelo da Sara. Porque se ela vem para o meu colo eu abraço-a com força. Para que não saia de perto e me continue a dar colinho a mim. Passei a ser menos filha e mais mãe e calor de gente e amor nunca me faltou. Mas a vida tornou-se simples. Tinha pedido simples e saiu uma desilusão.
Escolhi trocar o imenso tempo livre que tinha por dias mais ocupados. Um dia, vão deixar de o ser. E vou ter tempo para fazer o que quero e o que gosto. Falta-me a paciência para esperar. Não devia ser assim. Não devia ser preciso esperar ou então eu não devia ter tanta pressa para tudo mudar.
Acordar às 6h30 passou a ser habitual. Trabalhar, chegar a casa e jantar. Arrumar um pouco, passar uma roupa pequenina a ferro. Fazer listas mentais sobre o que é preciso para que passe mais uma semana. Não é tão diferente o antes e o agora. O que mudou foi esta grande impossibilidade de poder planear os dias em que ia poder fazer o que me dá prazer. E assim se transformou uma vida complicada numa vida simples. Não tenho mais nem menos problemas. Só que perdi o espaço que tinha para sonhar.
Deixei de ser o que queria apesar de ter sido eu a criar a mudança. Sou por dentro casada e mãe. Já fui outras coisas mas não me lembro bem. Posso apenas esperar pelo dia em que me vou lembrar, do que brilhava em mim quando era mais do que este ninguém. Sonhava tão pouco mas esse pedacinho da minha alma era tanto para mim.
27 dezembro 2014
Gekiga
Yoshihiro tatsumi - Pushman and Other Stories
Comecei por comprar Pushman and Oher Stories e fiquei viciada. Procurei todos os livros deYoshihiro Tatsumi que podia comprar na amazon.
Nunca me interessei por Manga porque associava às estantes da fnac que estão cheias do Naruto. Mas quis saber mais. Acabei de ler o meu primeiro livro de Manga. Escolhi um livro do Osama Tezuka, o " pai do Manga moderno".
Ainda estou a tentar decidir se gosto ou não. A cada página vou aprendendo a gostar. Gosto cada vez mais, não consigo parar de ler, mas tenho dúvidas.
Só tenho a certeza que arranjei mais um vício. Não sei se volto a comprar Osama Tezuko. Tenho mais um livro para ler e depois decido.
Quanto aos livros do Tatsumi, são obras de arte. Encontrei um artigo interessante no The New York Times.
Gekiga é um tipo de Manga mais adulto, livros mais dramáticos e psicologicamente mais complexos, muitas vezes histórias violentas e realistas. Ao contrário do Manga tradicional, escrita para o público infantil.
Quanto aos livros do Tatsumi, são obras de arte. Encontrei um artigo interessante no The New York Times.
Gekiga é um tipo de Manga mais adulto, livros mais dramáticos e psicologicamente mais complexos, muitas vezes histórias violentas e realistas. Ao contrário do Manga tradicional, escrita para o público infantil.
Buddha, vol.1: Kapilavastu - Osamu Tezuka
19 dezembro 2014
Blogs de Gajas
Porque é difícil manter um blog - dissertação.
É muito difícil manter um blog de gaja. Não gosto de fazer compras, não me interesso por moda, não uso maquilhagem, a minha casa ainda parece um apartamento de estudantes, não sigo nenhuma série na TV, não tenho uma cantora preferida, não sou fada do lar, não gosto de vestir a minha filha com lacinhos. Não sigo nenhuma filosofia de vida, não tenho religião, interesso-me por política apenas o suficiente para ter uma opinião quando vou votar. Só gosto de animais domésticos na casa dos outros, não colecciono nada, não gosto particularmente de frases feitas, não gosto de livros de auto-ajuda.
Dou erros ortográficos, escrevo sobre assuntos que me interessam apenas a mim e que não tocam ao coração da maioria. Faço receitas culinárias saudáveis mas o que a malta quer é açúcar e colesterol. Não tenho uma cultura geral que impressione. Gosto muito de ver o Quem Quer Ser Milionário mas morria de medo de participar. Não fosse falhar numa pergunta básica que implicasse saber que foi o Cantiflas. Não suportaria a humilhação.
Detesto cor-de-rosa, abomino clichés sobre o que é ser mulher ou como é trabalhar com mulheres ou sobre como se comportam as mulheres ao volante. Não tenho jeito para me pentear. Irrita-me a secção de revistas dos aeroportos que resolveram designar por Women´s Lifestyle. Aproximo-me das prateleiras e chego mesmo a ter que olhar para dentro da blusa para me assegurar que as minhas mamas estão lá. Não há lá nada que me apeteça comprar. Serei um homem? Isso também não porque a GQ não me diz grande coisa.
Não sei dizer coisas bonitas. Sofro com a dor dos outros mas prefiro guardar cá para dentro a empatia que sinto. Não tenho frases feitas prontas para todas as ocasiões. Tenho imenso jeito para ser politicamente incorrecta. Claro que gosto de ir ao www.citador.pt mas não é ferramenta para construir o meu blog.
Perguntavam-me um dia porque é que nas telenovelas as personagens passavam por situações tão extremas e ninguém tinha vidas pacatas, não iam e vinham do trabalho semana após semana, faziam o jantar todos os finais de tarde e lavavam máquinas de roupa ao fim-se-semana. Mas quem se interessa por uma vida normal? Essa já nós a temos e não queremos ver ou ler sobre a rotina da vida de alguém normal. Quem quer ler um blog sobre uma vida normal?
Gosto de estar sozinha, falo com pouca gente, não gosto da maioria, e dos que gosto, gosto muito e com todo o coração. Nunca lhes disse, não sei como se faz. Não poderia nunca ser life coach. Não sei sequer o que fazer da minha e só gosto de falarp ara plateias quando domino o assunto. E sobre a vida não sei nada. Nem da minha nem das dos outros.
Gosto da ausência, dos prazeres da solidão. De estar no sofá sem ter que falar com ninguém. Gosto tanto do meu sofá. Não tenho certeza de nada mas tenho opinião sobre tudo. Acredito que o melhor que posso fazer é guardá-la para mim. Ninguém quer saber da opinião dos outros, a não ser que seja a de quem nos paga o salário. Porque as contas vão estar sempre por pagar. E é esta a única certeza que temos neste momento.
Entretanto vou escrevendo. Palavras ao vento. Dizem que somos feitos desta forma, os introvertidos. O que guardam para dentro metem assim para fora. E vou amando os que me agradam, os amigos os colegas. E acima de tudo o meu companheiro que me mantém quentinha e a minha filha que me treina no faz de conta. Faz de conta que bebe chá, faz de conta que põe o bebé a dormir. Eu faço de conta que sou feliz quando estou a fazer de conta sem ela.
Posso viver sem um blog mas por favor que nunca me faltem livros de outros para aprender e palavras minhas para escrever. Mesmo que seja irrelevante que haja alguém para as ler.
Que não me faltem sonhos que venham de filmes com mulheres com o poder nos surpreender.
17 dezembro 2014
Espinho cidade moribunda
Foto de Filipe Ribeiro
Ainda bem que a minha avó não está cá para ver isto. Um muro em frente à casa onde viveu uma vida, onde o comboio passava e eu acenava a dizer adeus. Ouvia-o por cima dos carris quando adormecia debaixo dos cobertores pesados. O Rio Largo e o Bairro dos pescadores parecem guetos. Com muros e grades coladas a casas que sempre lá estiveram.
Um monte de alcatrão e cimento cobre a linha de comboio que foi enterrada. Fazem-se festas de verão em cima deste alcatrão, com rulotes de farturas e insufláveis a gritar música insuportável.
Está decadente a cidade onde nasci. As lojas fecham e as vitrinas estão cobertas de jornais velhos, os cinemas fecharam, os prédios caem, as casas antigas e magníficas são carcaças à espera de cair para um construtor civil qualquer fazer mais um prédio que vai ficar gasto pelo sal do mar. Ninguém olha pelos passeios, que são um intercalar de cimento esburacado e terra batida.
O Sporting Club de Espinho não tem onde morar. O estádio é um destroço e encho-me de tristeza quando penso nos jogos de voleibol que fui ver ao "Espinho". Desta vez ganhou a Académica. E continua a ganhar. O Palácio da Rosa Pena faz doer o coração. Fecho os olhos sempre que subo a Rua 19.
Abrem lojas e fecham lojas, os negócios não vingam, ninguém se interessa por nada. Parece que nem mesmo os lojistas se lembraram que não basta abrir portas. É preciso ter boas ideias e dinamizar o comércio de rua. Que raio de cidade sem vigor nem energia. Aos poucos foi deixando de existir.
Passeio pelas ruas e pergunto-me se estarei na capital da Ucrânia ou de um qualquer país acabado de sair de uma guerra civil.
Olho para o mar e respiro fundo. O mar maravilhoso de Espinho, que cheira a peixe e às redes que se puxam dos barcos. Que de dia está cheio de gente a flutuar na espuma das ondas e que de noite tem canas de pesca espetadas na areia à espera do robalo para o jantar. Olho para o mar e evito virar-me para trás. Sentada no muro suspiro a pensar que o mar de Espinho merecia outra cidade para banhar.
16 dezembro 2014
40
Tenho 37 anos, ainda não tenho 40. Mas sinto-me assim, com 40. Não me sinto mais velha nem mais nova do que sou nem acho que ter 40 seja um estado em que se possa agrupar as mulheres. Não somos todas iguais de certeza. Há mulheres de 40 com 30 e mulheres de 40 com 60. Há mulheres de 40 que gostam de dormir até ao meio dia e outras que acordam às 6 da manhã. Umas gostam de ser mães e outras não. Algumas ocupam o tempo de forma completamente diferente de quando tinham 20 e outras continuam a gostar da mesma música, do mesmo ginásio e de ver televisão até às 3 da manhã.
O que é isso de ter 40? Eu sinto que tenho 40 porque trabalho com pessoas que têm menos 15 anos que eu. Começo a ter sentimentos de "mamã" em relação a quem tem 20 anos. Compreendo as dificuldades que sentem melhor (de certeza) do que eles sabem o que é ter 40.
Aos 20 não fazemos ideia do que é ter 40. E se calhar não é assim tão diferente. Os dramas são os mesmos, só que ligeiramente adaptados à evolução da vida.
Aos 40 podemos passar pelos dramas que tínhamos com 20 anos mas com a grande vantagem de termos outra maturidade para lidar com eles (e normalmente mais dinheiro no bolso). Aos 20 podemos lidar com os mesmos dramas dos 40 com a vantagem de podermos optar por uma mudança de vida, com mais facilidade (não temos o empréstimo para pagar, nem os filhos para educar, nem somos tão comodistas para deixar tudo para trás).
Ter 40 não é melhor nem pior do que ter 20. É diferente. Não fazemos mais ou menos coisas do que quando tínhamos 20. Fazemos coisas diferentes.
Gosto imenso de ter 40. Mesmo que tenha apenas 37.
E que aos 20 ou aos 40, a nossa vida seja um olhar constante para um mar de infinitas possibilidades. Porque sonhar, querer mudar e passar por experiências diferentes, é comum a todas as idades.
Dedicado à Ana Sénica, que sem querer e sem saber me fez lembrar com era bom ter 20 e como é bom ter quase 40.
27 novembro 2014
Que vai ser quando crescer?
Verbo ser
Carlos Drummond de Andrade
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
25 novembro 2014
Quando dou por mim, estou a ser a minha mãe
É inevitável. Os nossos filhos em adultos vão sempre ter um trauma causado pelos pais. Por mais livros que se leiam, teorias que se sigam, esforços para sermos as melhores mãe do mundo e dar-lhes o melhor, nós vamos ter culpa dos traumas que têm. Vão-nos culpar por não termos tratado de uma doença da melhor forma, por não saberem tocar um instrumento musical ou porque nunca os inscrevemos nas aulas de dança, por não lhes termos posto um aparelho nos dentes ou por temos obrigado a pôr aparelho nos dentes.
É também difícil não transportamos para os nossos filhos os nossos dissabores com a vida. Tenho alergias e asma desde os 10 anos e sempre disse que o que mais me deixaria triste era ter uma filha alérgica e asmática. Pimbas! Alergias, eczema, infecções nos pulmões. E começaram bem mais cedo que as minhas. Tinha prometido a mim mesma que nunca ia entrar nas paranóias da minha mãe de estar sempre a lavar tudo e a sacudir tapetes, eliminar almofadas do quarto e da sala. Lembro-me de ser adolescente e de lhe dizer vezes sem conta para não se preocupar tanto. Não fazia assim tanta diferença ter um esterilizador de ar, spray mata ácaros e lavagens constantes da roupa. Pimbas! Dou por mim a fazer o mesmo, a trocar lençóis e edredons de 2 em 2 dias e a esconder tudo o que é peluche, a limpar constantemente a cama dela no caso de ficar com pó acumulado ou de um fungo se ter escondido em algum sitio.
27 anos de asma ensinaram-me que não adianta fazer tratamentos caríssimos, nem comprar produtos milagrosos para as alergias. Não adianta deixar de fazer desporto ou qualquer actividade considerada normal para um não asmático porque nos deixa tontos e mal dispostos. Apenas com esforço e persistência se vence a asma. E as alergias? aprendi a viver com elas. Aos 28 anos, e depois de tomar medicação diariamente durante 18 anos, deitei tudo ao lixo. Tinha acabado de vir da farmácia com um saco pequeno cheio dos inaladores do costume. Fartei-me. Deitei tudo fora. Até mesmo o inalador de emergência. True story. Peguei na gaveta da mesinha de cabeceira e esvaziei-a no caixote do lixo.
Comprei um fato de banho. Tinha uma piscina olímpica a 10 minutos de casa. Nunca tinha nadado numa piscina com mais de 25 metros. A primeira vez, fiz duas piscinas e parei, sem fôlego. Voltei a repetir até ficar tonta. Voltei outra vez na mesma semana e fiz o mesmo, cerca de meia hora de pára arranca.
Duas semanas mais tarde já conseguia nadar 15 minutos seguidos e dois meses depois nadava uma hora sem parar, naquela piscina fantástica que já tinha recebido os Commonwealth Games por volta dos anos setenta. Nadava uma hora non stop na pista de velocidade intermédia e não prolongava mais o exercício porque mais do que uma hora me aborrecia.
Uns anos mais tarde recebi a prenda que, como muitas vezes já contei, foi eleita como a melhor prenda que alguma vez me ofereceram. Umas botas de caminhada. Incentivo do marido para me levar a fazer o que ele mais gostava: caminhar nas montanhas. Recusei-me no início. Disse-lhe que fazia apenas caminhadas em terreno plano. Paciente como é, fez comigo duas ou três caminhadas à beira mar, longas, mas nada que um asmático não aguentasse. Levou-me um dia para a Serra de Valongo e quem já lá foi, conhece a subida íngreme de um dos percursos. Nessa única subida tive três ataques de asma. Deitei-me no chão por duas vezes para não ficar roxa. Devo ter mesmo mudado de cor, a ver pela cara do meu marido. Um ano mais tarde, e depois de nos termos juntado a um grupo de caminhada, fizemos o mesmo percurso. Fiz a mesma subida íngreme como se de um passeio no parque se tratasse, liderando o grupo e a achar que era um campeão!
Este ano infelizmente tive que voltar a comprar um inalador para emergências. Mas até fico contente por na farmácia já nem me lembrar do nome da bomba que mais vulgarmente usam os asmáticos.
Tenho uma filha que usa inalador de manhã e à noite e gostava de poder decidir não o usar. Não sou médica, não me vejo com capacidade para decidir o que é melhor para ela. É por isso que vou a um pediatra. Em princípio sabe melhor que eu e é importante confiar na sua opinião. Senão não ia lá.
Acredito que a mim a medicação para a asma me tenha sido essencial em alguns momentos. Mas sinto-me melhor que nunca desde que deixei de a usar.
Acredito em muitas coisas que foram determinantes para as escolhas que fiz para mim: não comer carne vermelha, não beber leite, não tomar medicação para a asma, não ir à missa, não mentir, não magoar ninguém intencionalmente...
Deixo estas decisões para a minha filha tomar quando for grande. Para já, e quando me sinto a ser como a minha mãe, a limpar o pó e a lavar roupa vezes sem conta, espero apenas não estar a tomar as decisões erradas. Mesmo que não sejam as decisões certas.
É também difícil não transportamos para os nossos filhos os nossos dissabores com a vida. Tenho alergias e asma desde os 10 anos e sempre disse que o que mais me deixaria triste era ter uma filha alérgica e asmática. Pimbas! Alergias, eczema, infecções nos pulmões. E começaram bem mais cedo que as minhas. Tinha prometido a mim mesma que nunca ia entrar nas paranóias da minha mãe de estar sempre a lavar tudo e a sacudir tapetes, eliminar almofadas do quarto e da sala. Lembro-me de ser adolescente e de lhe dizer vezes sem conta para não se preocupar tanto. Não fazia assim tanta diferença ter um esterilizador de ar, spray mata ácaros e lavagens constantes da roupa. Pimbas! Dou por mim a fazer o mesmo, a trocar lençóis e edredons de 2 em 2 dias e a esconder tudo o que é peluche, a limpar constantemente a cama dela no caso de ficar com pó acumulado ou de um fungo se ter escondido em algum sitio.
27 anos de asma ensinaram-me que não adianta fazer tratamentos caríssimos, nem comprar produtos milagrosos para as alergias. Não adianta deixar de fazer desporto ou qualquer actividade considerada normal para um não asmático porque nos deixa tontos e mal dispostos. Apenas com esforço e persistência se vence a asma. E as alergias? aprendi a viver com elas. Aos 28 anos, e depois de tomar medicação diariamente durante 18 anos, deitei tudo ao lixo. Tinha acabado de vir da farmácia com um saco pequeno cheio dos inaladores do costume. Fartei-me. Deitei tudo fora. Até mesmo o inalador de emergência. True story. Peguei na gaveta da mesinha de cabeceira e esvaziei-a no caixote do lixo.
Comprei um fato de banho. Tinha uma piscina olímpica a 10 minutos de casa. Nunca tinha nadado numa piscina com mais de 25 metros. A primeira vez, fiz duas piscinas e parei, sem fôlego. Voltei a repetir até ficar tonta. Voltei outra vez na mesma semana e fiz o mesmo, cerca de meia hora de pára arranca.
Duas semanas mais tarde já conseguia nadar 15 minutos seguidos e dois meses depois nadava uma hora sem parar, naquela piscina fantástica que já tinha recebido os Commonwealth Games por volta dos anos setenta. Nadava uma hora non stop na pista de velocidade intermédia e não prolongava mais o exercício porque mais do que uma hora me aborrecia.
Uns anos mais tarde recebi a prenda que, como muitas vezes já contei, foi eleita como a melhor prenda que alguma vez me ofereceram. Umas botas de caminhada. Incentivo do marido para me levar a fazer o que ele mais gostava: caminhar nas montanhas. Recusei-me no início. Disse-lhe que fazia apenas caminhadas em terreno plano. Paciente como é, fez comigo duas ou três caminhadas à beira mar, longas, mas nada que um asmático não aguentasse. Levou-me um dia para a Serra de Valongo e quem já lá foi, conhece a subida íngreme de um dos percursos. Nessa única subida tive três ataques de asma. Deitei-me no chão por duas vezes para não ficar roxa. Devo ter mesmo mudado de cor, a ver pela cara do meu marido. Um ano mais tarde, e depois de nos termos juntado a um grupo de caminhada, fizemos o mesmo percurso. Fiz a mesma subida íngreme como se de um passeio no parque se tratasse, liderando o grupo e a achar que era um campeão!
Este ano infelizmente tive que voltar a comprar um inalador para emergências. Mas até fico contente por na farmácia já nem me lembrar do nome da bomba que mais vulgarmente usam os asmáticos.
Tenho uma filha que usa inalador de manhã e à noite e gostava de poder decidir não o usar. Não sou médica, não me vejo com capacidade para decidir o que é melhor para ela. É por isso que vou a um pediatra. Em princípio sabe melhor que eu e é importante confiar na sua opinião. Senão não ia lá.
Acredito que a mim a medicação para a asma me tenha sido essencial em alguns momentos. Mas sinto-me melhor que nunca desde que deixei de a usar.
Acredito em muitas coisas que foram determinantes para as escolhas que fiz para mim: não comer carne vermelha, não beber leite, não tomar medicação para a asma, não ir à missa, não mentir, não magoar ninguém intencionalmente...
Deixo estas decisões para a minha filha tomar quando for grande. Para já, e quando me sinto a ser como a minha mãe, a limpar o pó e a lavar roupa vezes sem conta, espero apenas não estar a tomar as decisões erradas. Mesmo que não sejam as decisões certas.
Poema para todas as mulheres extraordinárias e para as crianças que que vão crescer para ser mulheres extraordinárias
Phenomenal Woman by Maya Angelou
Pretty women wonder where my secret lies.
I'm not cute or built to suit a fashion model's size
But when I start to tell them,
They think I'm telling lies.
I say,
It's in the reach of my arms
The span of my hips,
The stride of my step,
The curl of my lips.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
I walk into a room
Just as cool as you please,
And to a man,
The fellows stand or
Fall down on their knees.
Then they swarm around me,
A hive of honey bees.
I say,
It's the fire in my eyes,
And the flash of my teeth,
The swing in my waist,
And the joy in my feet.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
Men themselves have wondered
What they see in me.
They try so much
But they can't touch
My inner mystery.
When I try to show them
They say they still can't see.
I say,
It's in the arch of my back,
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
Now you understand
Just why my head's not bowed.
I don't shout or jump about
Or have to talk real loud.
When you see me passing
It ought to make you proud.
I say,
It's in the click of my heels,
The bend of my hair,
the palm of my hand,
The need of my care,
'Cause I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
But when I start to tell them,
They think I'm telling lies.
I say,
It's in the reach of my arms
The span of my hips,
The stride of my step,
The curl of my lips.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
I walk into a room
Just as cool as you please,
And to a man,
The fellows stand or
Fall down on their knees.
Then they swarm around me,
A hive of honey bees.
I say,
It's the fire in my eyes,
And the flash of my teeth,
The swing in my waist,
And the joy in my feet.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
Men themselves have wondered
What they see in me.
They try so much
But they can't touch
My inner mystery.
When I try to show them
They say they still can't see.
I say,
It's in the arch of my back,
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
Now you understand
Just why my head's not bowed.
I don't shout or jump about
Or have to talk real loud.
When you see me passing
It ought to make you proud.
I say,
It's in the click of my heels,
The bend of my hair,
the palm of my hand,
The need of my care,
'Cause I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.
08 novembro 2014
Pedir desculpa
Ontem fui-me deitar com uma terrível sensação de peso na consciência. Tinha sido má para a minha filha de dois anos. Fui mesmo mazinha, não há outra forma de o dizer. Sem paciência, cansada do final do dia e com pouco tempo para fazer várias tarefas, perdi a cabeça e fui mazinha. Agi até talvez até com uma pontinha de vingança e um cheirinho de crueldade.
Era tarde e ela já dormia quando desliguei a luz, encostei a cabeça na almofada e apercebi-me de algo terrível. É impossível pedir desculpa a uma criança de dois anos no dia seguinte. Não havia nada a fazer. Tinha sido mazinha e não havia medida correctiva. A não ser obviamente nunca mais voltar a fazer o mesmo. Ou corro o risco de destruir a relação que me esforço por ter com a minha filha. Desta vez tinha-me esquecido do respeito. Aquele pedacinho pequenino, apesar do tamanho, é gente que merece ser respeitada e sabe bem o que quer, o que lhe apetece e do que gosta.
Apercebi-me ao mesmo tempo que a importância de não adiar um pedido de desculpa não se limita às crianças. Aos dois anos, sinto que tenho que pedir desculpa imediatamente para que perceba ao que me refiro. No dia seguinte já não vai saber associar a nada. A um adulto podemos sempre pedir desculpa por algo que fizemos no passado, temos a oportunidade de explicar e mostrar arrependimento. Mas não é a mesma coisa do que pedir desculpa imediatamente, pois não?? Somos assim. Gente terrível.
São tantas as vezes que me zango com a Sara por ter comportamentos que eu própria também tenho: porque me dói a cabeça, porque o dia me correu mal, porque a sopa que me sabe bem todos os dias hoje não me apetece comer, porque não quero ir dormir à mesma hora do costume ou simplesmente porque há dias em que precisamos de mais miminho do que o no dia anterior. Também há dias em que dou respostas tortas e não peço por favor depois de pedir para me passarem o sal, É importante não exigirmos dos nossos filhos a perfeição que nós próprios nunca vamos ter.
Desculpa Sarinha. Vou tentar não ser outra vez tão mazinha.
25 outubro 2014
As crianças de 2 anos não querem ir de férias
As crianças de 2 anos querem ter férias com os pais mas só os pais é que querem ir para fora. Uma criança de dois anos não quer ver paisagens, nem ficar em hotéis nem ir a outras praias se têm uma mesmo à porta de casa.
Não é nada divertido ficar sem os brinquedos, sem a cama, e passear demasiado. Os aeroportos são chatos, os aviões só são divertidos se os virmos a voar, porque dentro são pequenos e apertar o cinto é uma tortura.
Para uma criança de dois anos, passar férias com os pais é fixe e não precisa de ser longe de casa. Pode ser mesmo alí onde estão as coisas a que está habituada. Porque o que interessa é poder aproveitar para brincar com a mãe e o pai. Comer em restaurantes todos os dias é uma chatice (quando ainda por cima a comida da mamã é a melhor do mundo!!).
Já para os pais, é tão bom sair de casa, não ter que lavar louça e nadar numa piscina todos os fins de tarde, É divertido levar a Sara a ver peixes, e mercados cheios de fruta. Fazer caminhadas pelas florestas e mostrar-lhe os pássaros, as folhas das árvores e a água das levadas a correr. Ficamos bem depois de uma semana assim. Não tivéssemos reparado que a Sara se aborrecia se andava mais de uma hora de carro, que detestava jantar nos restaurantes, que não tínhamos levado brinquedos e livros suficientes e que pedia sempre a chupeta talvez por estar cansada e demasiado fora das rotinas.
Também vê pássaros da varanda de casa, também há folhas de árvores na nossa rua e parques de diversão para sujar a roupa no escorrega. Também há montanhas para caminhar por aqui perto.
Foi apenas uma semana e a Sara viu muitas coisas diferentes, passou muito tempo com os pais e teve até direito a dormir todas as noites na cama com a mamã. O pai e a mãe descansaram e gostaram de sair da rotina. Mas sair da rotina foi bom para nós e talvez menos bom para ela.
Depois de uma semana de férias aprendi muito sobre maternidade. E os pais e a criança estiveram de acordo numa coisa - o regresso a casa. É tão bom regressar e tomar banho na nossa banheira, dormir nos nossos lençóis e comer qualquer coisa saída do nosso frigorífico. A Sara, assim que entrou pela porta, foi a correr para os brinquedos dela. Durante meia hora não quis saber de mais nada para além dos objectos que lhe eram familiares, na sala da casa dela.
29 setembro 2014
Educar uma menina
E é por isso que sei que este texto é apenas um compromisso que assumo comigo mesma, de me esforçar para que corra tudo da forma que acredito ser melhor para as duas. Porque agora não estou cá só eu, há duas meninas na nossa casa.
Acredito que criar uma menina me seja mais difícil do que criar um menino. Porque já fui uma menina também, porque a vida das meninas começa a ser difícil quando o deixam de ser e porque vou ter sempre dúvidas se o que gostava que ela fosse não está demasiado relacionado com a minha experiência como menina.
E como se dá o exemplo à nossa filha quando eu mesmo ainda estou a tentar descobrir o que é isto de ser mulher?
Vou dizer-lhe que é bonita, mesmo que tenha acabado de acordar, com o cabelo despenteado e os olhos inchados, quando está transpirada de tanto correr, e não apenas quando tem um vestido bonito e uns sapatos novos.
Vou deixá-la correr e saltar e trepar às árvores que quiser, Não adianta dizer a uma criança tão energética que vai cair e se pode magoar.
Vou vestir-lhe vestidos catitas mas deixá-la ir ao parque "limpar" o escorrega com o vestido que estava tão branquinho.
Vou gostar do meu corpo para que goste do dela também, e vou deixá-la comer, comer com o apetite voraz que tem, mas terei que explicar que comer mal e demais é uma forma de desrespeitar o nosso corpo.
Vou contar-lhe as minhas histórias, e mostrar as minhas vulnerabilidades, para que saiba que partilhar intimidade é importante. Vou deixá-la chorar porque as lágrimas não são fraqueza.
Vou-lhe dar muitos abraços e beijinhos mas nunca obrigá-la a fazer o mesmo se não quiser.
Mais tarde, quero que saiba que tem o direito a ter opinião e dá-la bem alto, mas que nunca falte ao respeito a um professor. Não é assim que nos fazermos ouvir. E mostrar que tem sempre razão não é nada importante. Vou-lhe ensinar a dar o braço a torcer. Admitir um erro é uma grande qualidade.
Vou deixar que use roupas largas mas tentar perceber o que está de facto a esconder.
Vou deixá-la ir a casa das tias aprender a usar maquilhagem e pentear o cabelo, porque eu não o vou saber fazer. Vou ensiná-la que é bonita mesmo que não se preocupe com nada disso.
Vou ensiná-la a cozinhar, a passar e a cozer botões, não porque é menina mas porque a vai ajudar no futuro a ser independente.
Vou ensinar-lhe que ela não é a altura que tem, nem as roupas que veste, nem o namorado que a acompanha. Não é os livros que lê, nem os resultados dos exames que fez na escola. Ela não é a medida nem a escala que a sociedade criou para a avaliar.
E mais importante que tudo isto, só porque somos as duas mulheres, não vou querer que ela veja o mundo com os meus olhos, Ela tem os dela para que possa criar a personalidade dela. Mesmo que não seja nada daquilo que eu sou.
Espero que seja boa pessoa e que perceba que isso não significa deixar-se ficar para trás, para ajudar os outros. Vou ensiná-la a ser bondosa com os outros mas principalmente com ela própria.
Ela é um ser individual. E isso é mais importante do que ser minha filha ou mulher. E mais importante ainda é que eu a eduque todos os dias sem estar a pensar que estou a educar uma menina ou um menino. Estou apenas a tentar educar a Sara.
04 abril 2013
Preferes menino ou menina?
Quando a barriga começou a fazer-se notar, bem mais depressa do que que imaginei, surgiu a necessidade de informar colegas e amigos que vinha aí bebé.
Descobri, com o crescer da cria na barriga, que as pessoas mostram muito afecto às grávidas. Recebi carinho genuíno, muitos sorrisos e desejos de felicidades. Faziam-me muitas perguntas, quase sempre as mesmas, que respondia sempre muito contente por poder repetir vezes sem conta quantos meses faltam, que estava tudo bem e que me sentia super feliz. E começou a surgir também repetidamente a pergunta "preferes menino ou menina?". Estranhei a primeira vez que me fizeram a pergunta, e a segunda e a terceira e quarta...até que, depois de alguns meses de gravidez e de algumas conversas com mães (principalmente com mães e não tanto com pais), finalmente percebi porque era tão diferente para os pais ter um menino ou uma menina.
Sou pouco atenta ao que não me interessa. Sou aliás pouco atenta a tudo no geral e como a maternidade nunca foi assunto que me tivesse interessado até não o poder evitar (afinal ia ter em breve um bebé nos braços para educar), só aí me apercebi a diferença com que se educam meninos e meninas desde que nascem.
Nunca preferi nada, nem menino nem menina. Ia ser feliz com o que a natureza colocasse na minha barriga. Ia ter os mesmos sonhos para um menino e para uma menina, ia educar os dois da mesma forma, pelo menos no que diz respeito ao que gostaria que fossem como pessoas. Mas descobri que não é assim. Que o papel que supostamente temos no meio onde vivemos é definido pelos pais desde que lhes nasce um filho ou uma filha. Porque as meninas são mais sossegadas e meiguinhas e os meninos são mais traquinas e divertidos. Porque os meninos jogam à bola, gostam de construções, vão ser mais independentes e um dia chefes de família. E as meninas fazem mais companhia às mães, ajudam em casa e são carinhosas. Carinho, essa coisa de menina que se for característica de um menino ainda me sai maricas! Murros e pontapés é coisa de menino que as meninas querem-se amansadas.
Nem sabem o que perdem as mães que por aí andam a achar que é assim desde que os filhos nascem. Que se tiverem filhos não têm a amizade que uma menina lhes podia dar, essa aliada, que nos ajuda a vencer a tirania dos maridos, que não fazem nada lá em casa. Afinal, foi a mãe que o ensinou a ser assim, essa mãe que eu também sou.
Fiquei surpreendida quando pela primeira vez vi com atenção as lojas de brinquedos e não percebi porque é que os meninos brincam com dinossauros e as meninas com tábuas de passar a ferro. Os meninos fazem experiências de química e vulcões e as meninas pintam princesas.
Não me agrada esta preferência pelo menino ou menina, devíamos ficar feliz com o que deus nos pôs na barriga para educar, para ser gente boa um dia, que mostra respeito pelo próximo e que vê no afecto e carinho a melhor forma de construir uma família. Seja qual for a forma que se escolha para o mostrar. Mesmo ateia, acho que deus há-de castigar quem fica triste porque lhe saiu menino quando queria uma menina.
A Sarinha vai brincar com os comboios que imagino que vai construir com o pai, brincar com as bonecas que lhe vão oferecer, usar os vestidos que quer ou as sapatilhas sujas que lhe apetecer. Vai ser amiga da mãe e do pai se deus quiser. E o pai já prometeu que a leva a pescar. E um dia, vamos os três ao estádio do Dragão ver o FCP.
A Sarinha vai ser uma grande mulher. Que sorte tem a mãe e o pai dela!
12 novembro 2012
Licença de Maternidade
Foi bom descobrir que uma licença de maternidade pode ser um período de introspecção profunda. Apesar das noites sem dormir me deixarem cansada ao ponto de sentir o meu cérebro parar de funcionar no seu modo normal, de ter todos os minutos ocupados e de nem conseguir perceber para onde foi o tempo de cada dia, as horas que passo sentada no sofá, na cama ou na poltrona do quarto a olhar para a minha bebé a mamar permitem-me ter imenso tempo para pensar.
Organizar-me para ter tempo para pensar foi algo me esqueci nos últimos meses, se calhar até nos últimos anos. Perdi-me no meio da confusão que criei nos meus dias, demasiado concentrada no que precisava para sobreviver. A ansiedade em que vivia constantemente deixou-me sem tempo para pensar.
Não ter tempo para pensar pode ser bom mas também pode ser mau. Evitei pensar demais no que me incomodava mas também não tive oportunidade de organizar os ficheiros internos. Sempre imaginei o meu cérebro como gavetas de um arquivo, com pastas onde se organiza o que precisamos de encontrar mais tarde.
E foi isso mesmo que me aconteceu nas últimas semanas que passei em casa a garantir que a minha filha crescia saudável e feliz. Tive tempo de organizar os ficheiros e também de encontrar informação antiga.
Lembrei-me do que gostava de ler, de comer, e mais importante, lembrei-me deste blog que estava aqui ao abandono.
Mesmo sabendo que vai ser uma escrita interrompida por colinhos, banhos de leite meio-digerido e fraldas mal cheirosas, vou tentar encontrar nos ficheiros do meu arquivo a vontade que tinha de escrever. Tenho aqui um outro ficheiro guardado que apesar de meio apagado, me faz recordar que escrever me fazia bem.
26 outubro 2011
06 outubro 2011
Ser feliz em Nusa Lembongan
Estamos em Nusa Lembongan onde eu descobri que fazer ferias de praia afinal nao e' mau. Alias, e' bem bom. E' uma praia como eu gosto. Sossegada, bonita e pouco estragada pelo turismo. Ao lado do nosso hotel, temos dezenas de sargaceiros a apanhar algas do mar, e a actividade deles nao para por causa dos turistas. Da-nos a sensacao de estarmos a invadir o espace deles.
Aqui nao ha lojas, nem discotecas, nem barulho. Apenas grupos de mergulhadores e algumas familias a passar ferias.
Fomos fazer snorkelling e apanhamos o maior escaldao das nossas vidas. Agora passamos o resto das ferias de t shirt vestida a fugir do sol o que e' uma pena. Mas nao faz mal, passeamos imenso.
Descobrimos uma tasquinha onde uma senhora cozinha peize maravilhoso. Comemos ate nao poder mais e bebi um bocadinho de cerveja a mais. Fui para o hotel a caminhar aos ziguezagues pela praia. Eu comi um peixe grelhado e o Claudio uma especie de escabeche de atum enrolado em folha de bananeira.
Vida boa.
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