31 janeiro 2007

Crónica Na Escola Primária

Quando andava no primeiro ano da escola primária, ficava toda contente quando a professora nos dizia que podíamos tirar as fichas de Religião e Moral da pasta. Era altura de pintar e eu adorava marcadores e lápis de colorir. Pintava anjinhos, senhores de barba vestidos com túnicas, estrelas, reis magos…

Em anos mais avançados, as fichas de Religião e Moral não eram apenas para colorir. Já sabíamos escrever e a ficha da semana antes do Natal tinha também umas linhas no fundo da folha. Tínhamos que escrever uma composição com os nossos pedidos de Natal a deus. “O que quero pedir a deus este natal? Eu não sei que tipo de coisas se pede a deus!”

Aos meus pais tinha pedido a cozinha das Barriguitas e roupinhas para as vestir, mas havia qualquer coisa que me dizia que não era bem bonecas que eu devia pedir a deus. Olhei à minha volta e estava tudo empenhado a escrever a composição. Tinha as palmas das mãos transpiradas e o coração a bater com tanta força que tinha medo que se ouvisse no silêncio da sala. “Não sei o que escrever!”. Foi a primeira vez que copiei. Inclinei-me para a esquerda e li o que a S. estava a pedir a deus. “Quero que Ele me dê amor e paz para a minha família e para todos”, ou assim qualquer coisa semelhante. Quero que Ele me dê….Ele com E maiúsculo! Eu copiei letra por letra, para não cometer nenhuma falha. Entreguei a ficha à professora com as mãos a tremer e com a sensação que era mentirosa e hipócrita.

Passei o resto da manhã com o coração apertadinho e muito mal disposta. Porque não tinha tido coragem de dizer que não queria, nem tinha que escrever a composição.

30 janeiro 2007

Fazendo uso das palavras dos outros

A vida ou o dogma? - Por Teresa de Sousa
Público - Terça-feira - 30 Jan 2007
[...]
Sinceramente, não creio que seja a vida que a Igreja defende. Inclino-me a pensar que é o seu dogma e a autoridade para impô-lo. Não é a vida sem defesa do embrião. É a uma concepção de vida que coloca a mulher no lugar inferior da escala, cuja função essencial é a procriação.
Se fosse a vida - e eu não tenho qualquer dúvida que a maioria dos católicos, como de resto a maioria das pessoas, defendem a vida - era a dignidade da vida, de todas as vidas. O que há de insuportável neste debate é a hipocrisia com que se defende a vida e se ignora a realidade social, o sofrimento, a discriminação. A Igreja sabe que continuará a praticar-se o aborto clandestino. Sabe que as pessoas com melhores condições financeiras e sociais vão a Espanha (onde uma lei idêntica à que hoje vigora em Portugal produziu resultados tão diferentes que ainda não foi preciso mudá-la), ou recorrem a clínicas privadas em Portugal. E que as adolescentes tantas vezes sozinhas com a sua angústia, ou as mulheres sem recursos vão continuar a sofrer a dor e a sofrer o estigma.
Não é a vida que a Igreja quer proteger. É apenas o dogma. Porquê? Para manter o seu poder sobre a sociedade e sobre as consciências. Razão prosaica e humana.

Ladytron - Destroy Everything You Touch

29 janeiro 2007


28 janeiro 2007

A História da Minha Inadaptação

Detestei ser adolescente. Fui muito infeliz e se pudesse apagar a minha vida entre os 13 e os 18 anos, nem pensava duas vezes.

Vivi dividida entre um pai português extremamente conservador e uma mãe holandesa muito diferente das outras mães.

Não concordavam em nada no que diz respeito à educação das filhas. Passei muitos anos a tentar perceber “Então afinal, o que é que está bem e o que é que está mal??!

Quando tinha 20 anos fui estudar International Management para Groningen, no norte dos Países Baixos. A bolsa de estudo foi uma desculpa para ir conhecer a parte nórdica da família e para conhecer melhor a terra da minha mãe.

Numa das disciplinas do curso, tive que ler um livro chamado “Cultures and Organizations” do Geert Hofstede. No dia em que li esse livro, acendeu-se uma luz! Muita coisa fez sentido! O livro tinha uma perspectiva organizacional mas explicou os motivos da sensação constante de inadaptação que acompanhou a minha adolescência. Diferenças culturais. Não me sentia portuguesa mas sentia-me ainda menos holandesa. Não estava bem lá, não estava bem cá. O livro pôs em palavras o que nunca consegui explicar.

"Culture is more often a source of conflict than of synergy. Cultural differences are a nuisance at best and often a disaster." Prof. Geert Hofstede, Emeritus Professor, Maastricht University.

Senti-me muitas vezes um desastre. Para piorar fui viver para o Reino Unido, onde, apesar de ser algumas vezes descriminada, fui muito bem recebida. Gostei de lá estar. Mas…

Não estava bem a viver lá. Voltei para Portugal. Não estou bem a viver cá.

Não estou bem a viver em lado nenhum. Felizmente já não sou adolescente e consigo tirar vantagem disto. Agora, não me sinto desadaptada. Sinto-me capaz de me adaptar a qualquer coisa.

Sábado à Noite no Rivoli

Encenação de Celso Cleto a partir do texto de Alfred Uhry. A interpretação é de Eunice Munoz, Thiago Justino e Guilherme Filipe.

26 janeiro 2007

Síndrome Imigrante – Lá Fora É Tudo Melhor Parte V

Pobreza Mental. É por este motivo que há tanta gente constipada e com gripe em Portugal.

Ontem estava à espera do alfa para Lisboa às 8:30 da manhã. Fiquei parva com a quantidade de pessoas na plataforma oposta, à espera do comboio para o Porto, que nem casaco de Inverno traziam.

Estou FARTA de ouvir queixas que está frio. Eu vivi 4 anos numa ilha onde faz MUITO mais frio e não se ouvia metade das queixas. E que tal usar um cachecol e umas luvas??? E que tal um aquecedor no local de trabalho? Eu nem peço aquecimento central, mas aquecer o local de trabalho podia prevenir muitos dias de baixa dos trabalhadores.

Em Portugal as pessoas vestem-se inadequadamente e alimentam-se mal. Tomam medicamentos por tudo e por nada.

Depois admirem-se que estão doentes.

Este país é o paraíso das farmacêuticas. Porque há muita corrupção e muita ignorância.

Estou IRRITADA. Decidi escrever uma crónica a explicar porque é que a cultura portuguesa me irrita tanto. Mas é preciso tempo e dedicação. Porque é um tema muito emocional. É a explicação da minha inadaptação. Vai ser a tarefa do fim-de-semana. Vamos lá ver se consigo.

Bom fim-de-semana para todos. E agasalhem-se que está frio!

Crónica Síndrome Imigrante – Lá Fora É Tudo Melhor Parte IV

Já não vinha com esta do Síndrome Imigrante há muito tempo, hã?? Já estavam com saudades?? Pensavam que me estava a habituar aqui à Terra?? Nada disso!

A próxima vez que alguém me disser - Aquilo lá na Escócia é que era frio!!O Inverno devia ser terrível!! – leva com um aquecedor voador na cabeça.

Não há país nenhum no mundo onde se passe tanto frio como em Portugal!!!!!

E vai haver outro aquecedor a voar para quem disser – Isto de estar numa sala com aquecimento o dia todo, faz-me ficar doente. É que quando tenho que ir para a rua sinto mais o frio!

Então a lógica é: se passarmos 8 horas no local de trabalho a tiritar de frio porque não há aquecimento central, não ficamos doentes. Se estivermos confortáveis o dia todo e depois apanharmos 2 minutos de frio, no caminho do escritório até ao carro, ficamos doentes. Tem uma lógica que realmente um ex-imigrante dos países do norte tem dificuldade em entender.

E que tal usar um casaco quentinho e um cachecol na rua? E que tal pararem com as perguntas parvas e ignorantes. AQUI PASSO MAIS FRIO QUE NA ESCÓCIA. OK?

Bolas!….Estou farta de andar constipada.

25 janeiro 2007

The Killers


Não consigo parar de ouvir este CD.

(Thank you for the CD, Kenny!)

The Killers - Read My Mind (Kimmel)

Revival Mood

Ando a tentar decidir se hei-de escrever uma crónica sobre o André.

Se calhar devia. O André foi meu “amigo” durante dois anos e nunca ninguém soube. A não ser as minhas colegas de casa de Coimbra, que o viram entrar e sair muitas vezes.

Eu acho que só se conta o que é importante contar.

Não o vejo há seis anos e combinei ir jantar com ele na próxima semana.

Tenho medo que ache que estou gorda, velha e chata. Tenho medo que as recordações boas que tenho dele deixem de existir. Afinal o André foi o único que não me desiludiu. E se me desiludir agora? E se a imagem que tenho do único rapaz que foi bonzinho para mim, deixar de fazer sentido.

E se eu cancelar o jantar?

24 janeiro 2007

Falta muito até Março?

Eu sou tão estúpida que o que me está a deixar mais entusiasmada em relação às minhas férias em Março, são as 6 horas que vou ter que passar no aeroporto de Londres, à espera do voo de ligação.

E porquê? Porque me lembrei de todas as coisas que costumava ter em Edimburgo e que vou poder comprar:

- Creme hidratante Neutrogena (da loja Boots)
- Os jornais (compro um no caminho para lá e outro no caminho para cá)
- Chá Earl Grey e Mint da Twinings (e tem mesmo de ser Twinings!)
- Uma sandocha em forma de triangulo da Pret-a-Manger com um pacote de parsnips fritos
- Um livrito ou dois que lá são bem mais baratos

Tudo coisas importantíssimas! Mas tendo em conta que os imigrantes portugueses levam bacalhau na mala…

Homens

Não há nada como acordar ao lado de um homem bonito.

Melhor ainda seria acordar ao lado de um homem interessante e o ideal era poder acordar ao lado do homem que se ama.

Mas como não se pode ter tudo…

23 janeiro 2007

Crónica Tenho alguma coisa escrita na testa?

Já perdi a conta às vezes em que cheguei a casa e fui imediatamente olhar para o espelho, para me certificar que não tinha escrito na testa: CONVERTAM-ME. Sou a vítima predilecta das pessoas que andam na rua a evangelizar e a distribuir revistas de carácter religioso.

Sábado passado, fui abordada na rua por um senhor já com alguma idade:

- Desculpe, tem uns minutos para falar comigo? Gostaria de viver num mundo onde poderia ser feliz e onde todos viveriam em Harmonia? A menina gostava de ser feliz?
- Eu sou feliz!! – respondi eu.
- Oh menina, ninguém é feliz!
- Essa agora! Eu sou feliz! – respondi, já na defensiva.

O discurso do senhor passou então a ser uma tentativa de me explicar porque é que eu era infeliz:

- Como é que pode ser feliz sabendo que a qualquer altura pode ser assaltada na rua?
- Realmente pode acontecer, e é pena não vivermos todos em harmonia, mas não é isso que me vai impedir de ser feliz.

A conversa prolongou-se e eu cheguei à conclusão que não valia a pena responder às perguntas que me fazia. O discurso dele estava já ensaiado e não mudava de acordo com as minhas respostas. Explicou-me que o dia em que deus virá “pôr os Homens em ordem” está para chegar brevemente e que tínhamos que ter respeito pelo criador.

- Olhe – disse eu para tentar pôr fim à conversa - realmente esta conversa não nos está a levar a lado nenhum. Eu não vou mudar de ideias e o senhor também não. E para além disso, eu estou com pressa.

- Tenha um bom dia então menina!

- Um bom dia para si também.

O senhor foi embora muito irritado comigo e com o facto de eu ser feliz.

Eu fui embora cheia de pena do senhor. Imaginei-o deitado na cama à noite, sem conseguir dormir, a olhar para o tecto com os olhos arregalados, a pensar no fim do mundo e em todas as coisas ruins que lhe podem acontecer. Incapaz de ser feliz, com medo de um deus que em breve nos virá castigar.

21 janeiro 2007

Crónica As Minhas Leituras

Mais uma vez, vou partilhar um excerto do livro que ando a ler:

[…] como sabem todos aqueles que leram alguma coisa, a imitação da infância é a primeira manha dos que, como eu, vêem fechar-se-lhes diante dos olhos as portas do paraíso do Amor. […]

A Vida Nova
Orhan Pamuk – Prémio Nobel da Literatura 2006

Um dos motivos que me levam a acreditar que nunca vou ser capaz de escrever, é a minha pura falta de talento. A outra é o facto de nunca ter amado ninguém. Como é que se pode escrever sem estas duas características fundamentais?

20 janeiro 2007

Crónica No Supermercado

Conteúdo do carrinho de compras da senhora à minha frente, na fila do supermercado:

Cinco pacotes de bolachas de chocolate, um saco familiar de queques de laranja, vários iogurtes sobremesa, uma caixa de bombocas, uma garrafa de coca-cola, duas embalagens de BioLife Devora Gorduras.

Era bom. Não era??

19 janeiro 2007

L´Age Mûr


Auguste Rodin era casado com Rose. Camille Claudel era a amante, 20 anos mais nova. Rodin hesita entre a jovem aprendiz e a mulher. Camille é abandonada, a sua obra nunca reconhecida. Rejeitada pela sociedade e pelo homem que ama. Viveu na sombra do amante a vida toda. Morre internada num hospício.

Uma história sem amor, não vale a pena ser contada.
Musée D´Orsay- www.musee-orsay.fr/
Camille Claudel - www.camilleclaudel.asso.fr/
Rodin - www.rodinmuseum.org/

18 janeiro 2007

Não Negue à Partida Uma Ciência Que Desconhece

Quando no trabalho me perguntaram se estava interessada em assistir à palestra da Leila Navarro: Talento Para Ser Feliz, eu torci o nariz.

“Leila Navarro é conhecida no meio corporativo como a "Viagra Empresarial", pois suas palestras são um estímulo para as pessoas alcançarem a felicidade e o bom humor constantes. Leila é uma das raras mulheres que compõem o cenário de conferencistas brasileiros, integrando o ranking dos 20 maiores palestrantes do país, divulgado pela revista Veja.”

Como é conhecido das pessoas que me são mais próximas, eu detesto livros de auto-ajuda e esta palestra seria uma versão live de um conceito em que eu não acredito.

Mas, porque a senhora é tão famosa, porque a entidade organizadora merece algum respeito e porque eu me obrigo a ter uma atitude de abertura em relação ao que não conheço (e porque me pagaram a inscrição!!), eu decidi ir. De pé atrás mas com a mente aberta.

A sessão começa com a entrada da Leila Navarro a dançar, vestida com uma roupa preta brilhante e umas plumas cor-de-rosa, ao som de It´s Raining Man!! Foi impossível não simpatizar com a senhora. Não discordei com nada do que ela disse e fartei-me de rir. Nota-se que é uma pessoa muito inteligente e que estudou muito sobre comportamento humano, marketing e motivação, para conseguir ser a palestrante de sucesso que é hoje.

Não acho que ela me tenha ensinado alguma coisa. Mas deixou-me muito bem disposta. Foi uma stand-up-comedy com a diferença de ter algum conteúdo.

Nada muda se você não mudar é o mote desta senhora. Ainda bem que eu acredito que somos capazes de mudar.

E a minha ida a este evento em Leça-da-Palmeira é a maior prova disso. Quem diria que eu alguma vez iria gostar de uma palestra que tem a pretensão de me ensinar a ser feliz.

17 janeiro 2007

Do Fundo do Baú

Eu sei que é comportamento típico de quem passa tempo demais em frente ao computador, mas hoje decidi fazer uma pesquisa no Google para: Cláudia Antunes. E para minha surpresa (ou embaraço) descobri que o jornal da minha faculdade ainda está on-line.

Era um jornal sem formato em papel porque não havia dinheiro para isso, escrito por meia dúzia de murcões com a mania que sabiam tudo!! E ora aí está a prova de que sempre fui assim: sem capacidade de expressão escrita e com a mania que sei tudo!

Podem-se rir um bocado a ler o meu artigo no Pheuk OnLine – Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Eu pelo menos assim o fiz. Ri a bandeiras despregadas. Foi para não chorar.

16 janeiro 2007

Crónica O Fim Do Mundo Como o Conheço

Fui prendada à concepção ou durante a gestação, seja lá qual for a altura em que estas características físicas são determinadas, com umas extremidades enormes. Uns pés e umas mãos desproporcionais à minha altura.

Desde a adolescência que tenho problemas em arranjar cobertura para os pés. Quando terminei a licenciatura e tive que ir à primeira entrevista de emprego telefonei de Coimbra, em pânico, à minha mãe – “Tenho uma entrevista para a semana e não tenho nada para vestir!!!”

Não tinha nada para vestir nem para calçar, obviamente. Nesse fim-de-semana fui ao Porto e consegui, numa sapataria chamada Via Nova, comprar um par de sapatos. Dos poucos que tinha possuído até à data.

Este meu problema foi sempre remendado com umas Nike pretas. Era uma solução muito simples. Comprava sempre um modelo preto de sapatilhas Nike. E quando chegavam ao fim da vida, cambadas e com buracos nas solas, era ir à loja e comprar outras, do mesmo tamanho e da mesma cor.

Foi assim que até hoje calcei os meus pés. Aliás, até à semana passada, quando descobri que a Nike deixou de vender, em Portugal, sapatilhas para mulher tamanho 7 (medida UK).

É o fim da minha existência como a tenho conhecido.

Se não fosse o frio e o dress code do meu local de trabalho, calçava havainas cor-de-rosa todos os dias. Felizmente tenho férias marcadas para daqui a dois meses. Vai ser uma mala vazia para lá e uma mala cheia (de sapatos) para cá.

E é assim que as raparigas que saem fora das medidas standard se amanham – além fronteiras.

15 janeiro 2007

14 janeiro 2007

Crónica O Meu Sistema Respiratório

Esta tarde fui-me deitar para descansar os meus pulmões cansados. Como não estava a dormir nem a ler, estava a pensar.

Porque é que gostamos mais de algumas pessoas do que de outras? Há uns meses atrás fui a um jantar e não conhecia a maioria das pessoas que lá estavam. Falei com quase todas mas gostei mais de um rapaz que, em menos de meia hora, me prendeu a atenção.

Porque é que gosto mais dele do que de outras pessoas? Porque ao e-mail que lhe enviei com o título Perguntinha ele me respondeu com um e-mail de título Respostinha.

E às vezes não vale a pena pensar muito mais sobre certos assuntos.

Virei-me para o outro lado e procurei outro tema para ocupar os meus pensamentos.

13 janeiro 2007

Crónica Pelo Menos Tenho Consciência Disso E Vou Sempre Devagarinho

Nunca me deviam ter dado a carta de condução. Tenho uma incapacidade total para aprender a conduzir, para perceber a lógica das regras de trânsito e para me entender com os carros que conduzo.

Quando tinha vinte anos, inscrevi-me numa escola de condução. Depois das aulas obrigatórias não me sentia minimamente preparada para fazer o exame mas a instrutora obrigou-me a marcar a data. “Bem” – pensei eu – “se ela está assim tão convencida que eu passo no exame, é porque não devo conduzir assim tão mal”.

No dia e hora marcados, apresentei-me no local indicado para fazer o exame. Saio do parque de estacionamento, vejo uma rotunda a aproximar-se e….o tipo sentado ao meu lado trava a fundo para evitar um acidente. Fiquei a centímetros do carro que vinha da esquerda.

Obrigou-me a parar na berma da estrada e deu-me um sermão, aos gritos: “Sabe as ovelhas nas montanhas” – dizia ele aos berros – “é no meio delas que devia estar a conduzir, não na estrada!!!Ao menos nas pastagens não há outros carros!” Depois de vários minutos de insultos em voz ultra alta, mandou-me seguir. Não percebi bem porquê. Pensava que já tinha chumbado e não via motivo para continuar.

Desta vez manda-me contornar o passeio numa curva. Um passeio muito alto. Engato a marcha a trás e Scriiiiiiiiiiiiitch!! A instrutora sai do carro para ver os danos na pintura.

Acreditem ou não, depois de mais meia dúzia de berros, manda-me continuar. Vamos para umas estradas menos movimentadas de Coimbra (já devia ir com medo!!). “Ultrapasse a velocidade máxima e ponha a quinta”. Ora eu nunca tinha metido uma quinta nas aulas de condução. Depois de hesitar, olho para a maçaneta das mudanças e ponho a quinta!!!!! Ui! O senhor passou-se outra vez e depois de mais uns gritos, mandou-me de volta para o parque de estacionamento.

Foi para o escritório dele preparar a documentação que eu pensava ia ser CHUMBADA E SEM POSSIBILIDADE DE VOLTAR A TENTAR. Mas qual não foi o meu espanto quando ele me entrega o documento com um carimbo APROVADO!

Eu fiquei a olhar para o papel muito tempo, depois olhei para o senhor que me fez o exame. Ele lançava-me faíscas pelos olhos. Olhei outra vez para o papel e comecei a caminhar na direcção da minha instrutora, muito intrigada. “Deve haver um engano!!” Fale baixo e vá embora!! – responde-me ela – “Então agora vai reclamar porque a passaram no exame?”.

E eu fui.

Juro que não paguei nada por fora a ninguém. E esta história é a mais pura das verdades. E até hoje, ainda não aprendi a conduzir.

10 janeiro 2007

Histórias da Minha Vida Profissional

Ando a morrer de saudades de trabalhar em hotelaria. Mais do que um emprego aquilo transforma-se num modo de vida. Tenho saudades das cozinhas dos hotéis. Adoro ver os tachos gigantes, as obras de arte dos cozinheiros gourmet, poder provar todos os ingredientes, ver sair, em 15 minutos e pelas mãos de dezenas de empregados de mesa, 500 pratos para um banquete…tenho tantas saudades.

Tenho muitas saudades também de Chefes Executivos gordos e muito abrutalhados que gritam 8 horas por dia para pôr uma cozinha a funcionar. Sempre me dei bem com os Chefes de Cozinha. Principalmente com um alemão de um metro e noventa de altura e com uma barriga provavelmente da mesma dimensão. O senhor estava determinado em pôr-me na engorda. Sempre que ia à cozinha, tinha que provar qualquer coisa que ele estava a preparar. Quando gritava comigo porque tinha feito asneiras (entre outras coisas eu era coordenadora de catering), agarrava-me pelo braço, empurrava-me para dentro do frigorífico com ele e dava-me um gelado. Um pedido de desculpa pelos decibéis a que tinha sujeitado os meus ouvidos. Quando trabalhava pela noite dentro e ele me via cansada, vinha ter comigo com uma goluseima. Chegava-se perto de mim – felizmente não muito perto porque a barriga não o permitia – e, com os dedos gordos, punha-me as franjas atrás da orelha. Quando me via durante a tarde a vir da cantina com uma lata de Coca-Cola Light na mão, agarrava-me pelo pulso e dizia-me que se eu continuasse a beber daquilo, nunca mais engordava!!! Chamava-me sempre à cozinha quando estava a fazer pratos exóticos: puré de batata roxa do Chile, carne de gazela da África do Sul, folhados de espargos com molho bechamel…

No dia em que vim embora, deixei as últimas despedidas para a cozinha. Deparei-me com um senhor grandalhão muito emocionado porque nunca mais íamos trabalhar juntos e porque nunca mais podíamos ter conversas sobre comidas do mundo e sobre os países todos onde ele tinha trabalhado. Deu-me um abraço com tanta força que eu senti-me sufocar naquela barriga gigantesca.

Partir tem destas coisas. Deixa muitas histórias para recordar. E eu gosto muito de me lembrar das pessoas que gostei de conhecer. Principalmente das que me dão de comer e acham que preciso de engordar.

09 janeiro 2007

Crónica Amigos Inimigos Amigos Diferentes

Sempre tive muitos amigos rapazes. E sempre achei que o facto de ser rapariga não faria alguma diferença na forma como nos relacionávamos. Descobri que não era assim quando fui acampar com um amigo, tinha na altura 21 anos. Apanhei-o a olhar para o meu traseiro enquanto eu gatinhava para entrar na tenda com um vestido muito curto. Fiquei admirada porque achei estranho que um amigo meu tivesse interesse em olhar para mim como olhava para outra mulher. Foi a partir desse dia que me apercebi que nunca podemos ser amigos de rapazes da mesma forma que eles são amigos entre eles. Nós vamos ser sempre o inimigo, e tratar-nos como iguais, significa trair a facção masculina.

08 janeiro 2007

Crónica Misérias da Vida Quotidiana

De vez em quando tenho que sair mais cedo do trabalho para enviar cartas com excesso de peso. Ir aos Correios pode ser uma experiência bem deprimente. Aquilo está cheio de velhinhas vestidas com saias de tubos prestes a rebentar pela pressão das banhas e velhinhos a precisar de tomar banho, lavar a roupa e cortar os pêlos das orelhas. Vão pagar contas ou levantar dinheiro que, pela quantia, me parecem ser os poucos euros que têm para viver durante um mês. Depois vão embora a arrastar os pés.

Depois, há as funcionárias. Que posso eu dizer das senhoras que trabalham nos Correios? Posso dizer que trabalham muito lentamente, perdem imenso tempo a conversar com toda a gente, deixam os amigos passar à frente na fila e dão respostas como: “Oh senhor António, páre lá de reclamar que eu já estou aqui desde as 13horas”.

07 janeiro 2007

Faltam dois meses



Ando a fazer um drama porque vou fazer trinta anos que mais parece que me vão tirar um rim. Mas hoje descobri uma coisa fantástica. A quantidade de Crónicas “A vida da Cláudia é Miserável” que este acontecimento vai gerar, facilitará muito a minha vida na blogosfera.

Acho que vou começar pela Crónica Já Não Tenho Idade para Isso – Justificação para todas as coisas que de qualquer maneira nunca gostei de fazer.

06 janeiro 2007

Crónica Ainda Não Sou Grande


TPC que me foi dado pelo Bagaço Amarelo: Escrever um post Quando for grande quero ser...

Quando for grande, quero que os outros meninos me chamem para brincar no recreio com eles. Quero mais até! Quero ser eu a decidir ao que vamos brincar e fazer as regras e mandar! Quero que gostem de mim. E não precisa de ser toda a gente. Só alguns. Os outros têm apenas que me respeitar. Depois, quando for a melhor em todos os jogos, e quando não estiver a aprender mais, quero mudar para outra escola. Conhecer outros meninos, com jogos diferentes e outras professoras com coisas novas para me ensinar. Se calhar não vou ser eu a mandar, como fazia no recreio da outra escola. Mas não faz mal. Vou gostar de ver uma árvore diferente da que vejo agora da janela da sala de aula. Porque eu vi no livro de geografia que de outras escolas se vêm coisas diferentes pela janela.

Na minha escola há muitos meninos e meninas. Nesta altura interessam-me muito os meninos. Quero que um me ofereça flores amarelas e me convide para lanchar com ele. Se ele for mau para mim, não faz mal. Há tantos meninos na minha classe! Há o A. que tem a colecção toda dos livros do Asterix, o M. que tem sempre as calças a cair e que é o melhor aluno em matemática, o L. que marca os golos todos na aula de ginástica e que nunca quer brincar comigo…

Sentadas num tijolo no parque atrás de casa, disse à S, que talvez fosse embora para longe, para outra escola. Ficamos a olhar para o chão. Ela então pôs o braço à volta dos meus ombros e disse: “Não quero que vás embora”. Ficamos sem dizer nada algum tempo. “Também não queria ficar longe de ti, mas a minha mãe diz que há amigas que são para sempre, e que me trazia aqui às vezes para brincarmos juntas outra vez”.

Quando for grande quero comer fatias de bolo bem grandes! E beber sumo de laranja e ir a festas de anos! Quero dar biqueiradas aos putos que me chateiam! Colar chiclets debaixo da mesa! Tirar catotas do nariz, transformá-las em bolinhas com as pontas dos dedos e atira-las ao ar!

Não quero ter que me preocupar com os trabalhos-para-casa todos os dias. Quero conseguir dormir todas as noites de luz apagada, sem medo do escuro. Quero que me contem histórias para adormecer.

03 janeiro 2007

Crónica Lucian Freud

Crónica inspirada no texto de Tiago Araújo de 2 de Janeiro, no blog através dos espelhos, sobre Lucian Freud.

Recordo-me bem de quando ia passar fins-de-semana a casa da minha tia em Bruxelas, era ainda adolescente. Ela e o marido colecionam arte e eu passava horas a olhar para os quadros pendurados nas paredes. Sentia-me muito intimidada pela carpete branca que eu acabava sempre por sujar com a terra que trazia nas sapatilhas, com a formalidade com que serviam chá e bolachas à tarde, com o abacate e camarões servidos como entrada ao jantar e com as trufas de chocolate servidas com o café.

Quando nos sentavamos no sofá da sala, ficava muito desconfortável com os dois quadros na parede em frente, de duas senhoras nuas, em poses muito graciosas. Incomodava-me a ideia de ter duas mulheres nuas a observar a nossa conversa. Era muito dificil para mim entender que aqueles dois senhores, mais velhos ainda que a minha mãe, gostassem de quadros com pessoas sem roupa. Lembro-me de pensar que nunca faria tal coisa em minha casa.

Incomodava-me a nudez nos quadros. Da mesma forma que durante muito tempo me incomodou olhar para um homem sem roupa. Achava-os desagradáveis à vista e pouco elegantes. Talvez me incomodasse menos a nudez versão hollywood, fabricada e pouco natural.

Mas agora estou diferente e dá-me prazer olhar para quadros como este. Vejo histórias de amor ou de deleite. Vejo gente que tirou prazer do corpo de outra ou gente que sofre e é vulnerável. Vejo muito mais do que um corpo nu.

No quarto da estalagem, encostado à janela a fumar um cigarro, perguntou-me porque é que estava a olhar. E eu respondi: Porque me dá prazer.

01 janeiro 2007

Conversas aos 2 anos de idade

Dia 31 de Dezembro à noite. Eu estou a arranjar-me para ir sair com uma amiga. O meu sobrinho vem atrás de mim para a casa-de-banho:

João: O qué ito?
Eu: Maquilhagem. Para fazer de conta que sou bonita.
Irmã (a gritar da sala): Vem para a sala João!
João (a correr pelo corredor fora): Não!! Estou a ver a Cacá pintar!!!!!!!
Eu: Eh eh! Estou a pintar …a cara!
João: Vais passear?
Eu: Vou. Mas o João fica em casa!
(vou para o quarto vestir-me)
João: Qué ito?
Eu: Meias calças…
João: O umbigo!!!!!
Eu: Sim, é o meu umbigo! Também tenho um, não és só tu.
João: Qué ito?
Eu: É um vestido…
João: Para ficares quentinha…
Eu: Eh eh! Sim, vou ficar muito quentinha!
João (a apontar para a minha tatuagem nas costas): Qué ito? Qué ito? Qué ito?
Eu: Não é nada! (visto o casaco rapidamente, não quero que o meu sobrinho fique com ideias de mutilar aquela pelezinha tão lisinha dele)
João:
É o sol!!!
Eu: O sol! Que fixe! Tenho o sol nas costas! Realmente só tu é que vias o sol numa coisa preta! Estou bonita João?
João: é…

Dia 1 de Janeiro de tarde.
João: A Cacá tá deitada no sofá!
Eu: A Cacá tá mal disposta.
João: Qué ito?
Eu: Herpes. Hoje não te dou beijinhos.

Gosto muito de ter conversas filosóficas com o meu sobrinho.