30 dezembro 2014

Vida simples


Quantas vezes desejei ter uma vida simples porque há sempre demasiada confusão na minha. E no meio de tanta confusão, alguma criada por mim e outra por outras coisas quaisquer, sinto que a minha vida confusa se tornou demasiado simples. Mas de uma simplicidade que nada tem a ver com a que eu queria.

Eu queria uma vida simples. Que me desse tempo para sonhar, para fazer o que eu gosto e não apenas o que é preciso fazer. Tenho a vida que tenho e aproveito dela o que tem de bom. Mesmo não sendo aquilo que eu queria ter. Aproveito a luz que entra pela sala e o quentinho que sai do corpo da minha filha. Troquei o miminho da minha mãe pelo da Sara. Porque se ela vem para o meu colo eu abraço-a com força. Para que não saia de perto e me continue a dar colinho a mim. Passei a ser menos filha e mais mãe e calor de gente e amor nunca me faltou. Mas a vida tornou-se simples. Tinha pedido simples e saiu uma desilusão.

Escolhi trocar o imenso tempo livre que tinha por dias mais ocupados. Um dia, vão deixar de o ser. E vou ter tempo para fazer o que quero e o que gosto. Falta-me a paciência para esperar. Não devia ser assim. Não devia ser preciso esperar ou então eu não devia ter tanta pressa para tudo mudar. 

Acordar às 6h30  passou a ser habitual. Trabalhar, chegar a casa e jantar. Arrumar um pouco, passar uma roupa pequenina a ferro. Fazer listas mentais sobre o que é preciso para que passe mais uma semana. Não é tão diferente o antes e o agora. O que mudou foi esta grande impossibilidade de poder planear os dias em que ia poder fazer o que me dá prazer. E assim se transformou uma vida complicada numa vida simples. Não tenho mais nem menos problemas. Só que perdi o espaço que tinha para sonhar.

Deixei de ser o que queria apesar de ter sido eu a criar a mudança. Sou por dentro casada e mãe. Já fui outras coisas mas não me lembro bem. Posso apenas esperar pelo dia em que me vou lembrar, do que brilhava em mim quando era mais do que este ninguém. Sonhava tão pouco mas esse pedacinho da minha alma era tanto para mim. 


27 dezembro 2014

Gekiga

Yoshihiro tatsumi - Pushman and Other Stories

Comecei por comprar Pushman and Oher Stories e fiquei viciada. Procurei todos os livros deYoshihiro Tatsumi que podia comprar na amazon. 

Nunca me interessei por Manga porque associava às estantes da fnac que estão cheias do Naruto. Mas quis saber mais. Acabei de ler o meu primeiro livro de Manga. Escolhi um livro do Osama Tezuka, o " pai do Manga moderno".

Ainda estou a tentar decidir se gosto ou não. A cada página vou aprendendo a gostar. Gosto cada vez mais, não consigo parar de ler, mas tenho dúvidas.

Só tenho a certeza que arranjei mais um vício. Não sei se volto a comprar Osama Tezuko. Tenho mais um livro para ler e depois decido.

Quanto aos livros do Tatsumi, são obras de arte. Encontrei um artigo interessante no The New York Times.

Gekiga é um tipo de Manga mais adulto, livros mais dramáticos e psicologicamente mais complexos, muitas vezes histórias violentas e realistas. Ao contrário do Manga tradicional, escrita para o público infantil.


Buddha, vol.1: Kapilavastu - Osamu Tezuka


19 dezembro 2014

Blogs de Gajas



Porque é difícil manter um blog - dissertação.

É muito difícil manter um blog de gaja. Não gosto de fazer compras, não me interesso por moda, não uso maquilhagem, a minha casa ainda parece um apartamento de estudantes, não sigo nenhuma série na TV, não tenho uma cantora preferida, não sou fada do lar, não gosto de vestir a minha filha com lacinhos. Não sigo nenhuma filosofia de vida, não tenho religião, interesso-me por política apenas o suficiente para ter uma opinião quando vou votar. Só gosto de animais domésticos na casa dos outros, não colecciono nada, não gosto particularmente de frases feitas, não gosto de livros de auto-ajuda.

Dou erros ortográficos, escrevo sobre assuntos que me interessam apenas a mim e que não tocam ao coração da maioria. Faço receitas culinárias saudáveis mas o que a malta quer é açúcar e colesterol. Não tenho uma cultura geral que impressione. Gosto muito de ver o Quem Quer Ser Milionário mas morria de medo de participar. Não fosse falhar numa pergunta básica que implicasse saber que foi o Cantiflas. Não suportaria a humilhação.

Detesto cor-de-rosa, abomino clichés sobre o que é ser mulher ou como é trabalhar com mulheres ou sobre como se comportam as mulheres ao volante. Não tenho jeito para me pentear. Irrita-me a secção de revistas dos aeroportos que resolveram designar por Women´s Lifestyle. Aproximo-me das prateleiras e chego mesmo a ter que olhar para dentro da blusa para me assegurar que as minhas mamas estão lá. Não há lá nada que me apeteça comprar. Serei um homem? Isso também não porque a GQ  não me diz grande coisa.

Não sei dizer coisas bonitas. Sofro com a dor dos outros mas prefiro guardar cá para dentro a empatia que sinto. Não tenho frases feitas prontas para todas as ocasiões. Tenho imenso jeito para ser politicamente incorrecta. Claro que gosto de ir ao www.citador.pt mas não é ferramenta para construir o meu blog.

Perguntavam-me um dia porque é que nas telenovelas as personagens passavam por situações tão extremas e ninguém tinha vidas pacatas, não iam e vinham do trabalho semana após semana, faziam o jantar todos os finais de tarde e lavavam máquinas de roupa ao fim-se-semana. Mas quem se interessa por uma vida normal? Essa já nós a temos e não queremos ver ou ler sobre a rotina da vida de alguém normal. Quem quer ler um blog sobre uma vida normal?

Gosto de estar sozinha, falo com pouca gente, não gosto da maioria, e dos que gosto, gosto muito e com todo o coração. Nunca lhes disse, não sei como se faz. Não poderia nunca ser life coach. Não sei sequer o que fazer da minha e só gosto de falarp ara plateias quando domino o assunto. E sobre a vida não sei nada. Nem da minha nem das dos outros.

Gosto da ausência, dos prazeres da solidão. De estar no sofá sem ter que falar com ninguém. Gosto tanto do meu sofá.  Não tenho certeza de nada mas tenho opinião sobre tudo. Acredito que o melhor que posso fazer é guardá-la para mim. Ninguém quer saber da opinião dos outros, a não ser que seja a de quem nos paga o salário. Porque as contas vão estar sempre por pagar. E é esta a única certeza que temos neste momento.

Entretanto vou escrevendo. Palavras ao vento. Dizem que somos feitos desta forma, os introvertidos. O que guardam para dentro metem assim para fora.  E vou amando os que me agradam, os amigos os colegas. E acima de tudo o meu companheiro que me mantém quentinha e a minha filha que me treina no faz de conta. Faz de conta que bebe chá, faz de conta que põe o bebé a dormir. Eu faço de conta que sou feliz quando estou a fazer de conta sem ela.

Posso viver sem um blog mas por favor que nunca me faltem livros de outros para aprender e palavras minhas para escrever. Mesmo que seja irrelevante que haja alguém para as ler.

Que não me faltem sonhos que venham de filmes com mulheres com o poder nos surpreender.





17 dezembro 2014

Espinho cidade moribunda


Ainda bem que a minha avó não está cá para ver isto. Um muro em frente à casa onde viveu uma vida, onde o comboio passava e eu acenava a dizer adeus. Ouvia-o por cima dos carris quando adormecia debaixo dos cobertores pesados. O Rio Largo e o Bairro dos pescadores parecem guetos. Com muros e grades coladas a casas que sempre lá estiveram.

Um monte de alcatrão e cimento cobre a linha de comboio que foi enterrada. Fazem-se festas de verão em cima deste alcatrão, com rulotes de farturas e insufláveis a gritar música insuportável.

Está decadente a cidade onde nasci. As lojas fecham e as vitrinas estão cobertas de jornais velhos, os cinemas fecharam, os prédios caem, as casas antigas e magníficas são carcaças à espera de cair para um construtor civil qualquer fazer mais um prédio que vai ficar gasto pelo sal do mar. Ninguém olha pelos passeios, que são um intercalar de cimento esburacado e terra batida.

O Sporting Club de Espinho não tem onde morar. O estádio é um destroço e encho-me de tristeza quando penso nos jogos de voleibol que fui ver ao "Espinho". Desta vez ganhou a Académica. E continua a ganhar. O Palácio da Rosa Pena faz doer o coração. Fecho os olhos sempre que subo a Rua 19.

Abrem lojas e fecham lojas, os negócios não vingam, ninguém se interessa por nada. Parece que nem mesmo os lojistas se lembraram que não basta abrir portas. É preciso ter boas ideias e dinamizar o comércio de rua. Que raio de cidade sem vigor nem energia. Aos poucos foi deixando de existir.

Passeio pelas ruas e pergunto-me se estarei na capital da Ucrânia ou de um qualquer país acabado de sair de uma guerra civil.

Olho para o mar e respiro fundo. O mar maravilhoso de Espinho, que cheira a peixe e às redes que se puxam dos barcos. Que de dia está cheio de gente a flutuar na espuma das ondas e que de noite tem canas de pesca espetadas na areia à espera do robalo para o jantar. Olho para o mar e evito virar-me para trás. Sentada no muro suspiro a pensar que o mar de Espinho merecia outra cidade para banhar.

16 dezembro 2014

40



Tenho 37 anos, ainda não tenho 40. Mas sinto-me assim, com 40. Não me sinto mais velha nem mais nova do que sou nem acho que ter 40 seja um estado em que se possa agrupar as mulheres. Não somos todas iguais de certeza. Há mulheres de 40 com 30 e mulheres de 40 com 60. Há mulheres de 40 que gostam de dormir até ao meio dia e outras que acordam às 6 da manhã. Umas gostam de ser mães e outras não. Algumas ocupam o tempo de forma completamente diferente de quando tinham 20 e outras continuam a gostar da mesma música, do mesmo ginásio e de ver televisão até às 3 da manhã.

O que é isso de ter 40? Eu sinto que tenho 40 porque trabalho com pessoas que têm menos 15 anos que eu. Começo a ter sentimentos de "mamã" em relação a quem tem 20 anos. Compreendo as dificuldades que sentem melhor (de certeza)  do que eles sabem o que é ter 40.

Aos 20 não fazemos ideia do que é ter 40. E se calhar não é assim tão diferente. Os dramas são os mesmos, só que ligeiramente adaptados à evolução da vida.

Aos 40 podemos passar pelos dramas que tínhamos com 20 anos mas com a grande vantagem de termos outra maturidade para lidar com eles (e normalmente mais dinheiro no bolso). Aos 20 podemos lidar com os mesmos dramas dos 40 com a vantagem de podermos optar por uma mudança de vida, com mais facilidade (não temos o empréstimo para pagar, nem os filhos para educar, nem somos tão comodistas para deixar tudo para trás).

Ter 40 não é melhor nem pior do que ter 20. É diferente. Não fazemos mais ou menos coisas do que quando tínhamos 20. Fazemos coisas diferentes.

Gosto imenso de ter 40. Mesmo que tenha apenas 37.

E que aos 20 ou aos 40, a nossa vida seja um olhar constante para um mar de infinitas possibilidades. Porque sonhar, querer mudar e passar por experiências diferentes, é comum a todas as idades.


Dedicado à Ana Sénica, que sem querer e sem saber me fez lembrar com era bom ter 20 e como é bom ter quase 40.