27 novembro 2014

Que vai ser quando crescer?

Verbo ser

Carlos Drummond de Andrade


Que vai ser quando crescer? 

Vivem perguntando em redor. Que é ser? 
É ter um corpo, um jeito, um nome? 
Tenho os três. E sou? 
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? 
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? 
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R. 
Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? 
Não dá para entender. Não vou ser. 
Vou crescer assim mesmo. 
 Sem ser Esquecer.


25 novembro 2014

Quando dou por mim, estou a ser a minha mãe

É inevitável. Os nossos filhos em adultos vão sempre ter um trauma causado pelos pais. Por mais livros que se leiam, teorias que se sigam, esforços para sermos as melhores mãe do mundo e dar-lhes o melhor, nós vamos ter culpa dos traumas que têm. Vão-nos culpar por não termos tratado de uma doença da melhor forma, por não saberem tocar um instrumento musical ou porque nunca os inscrevemos nas aulas de dança, por não lhes termos posto um aparelho nos dentes ou por temos obrigado a pôr aparelho nos dentes.

É também difícil não transportamos para os nossos filhos os nossos dissabores com a vida. Tenho alergias e asma desde os 10 anos e sempre disse que o que mais me deixaria triste era ter uma filha alérgica e asmática. Pimbas! Alergias, eczema, infecções nos pulmões. E começaram bem mais cedo que as minhas. Tinha prometido a mim mesma que nunca ia entrar nas paranóias da minha mãe de estar sempre a lavar tudo e a sacudir tapetes, eliminar almofadas do quarto e da sala. Lembro-me de ser adolescente e de lhe dizer vezes sem conta para não se preocupar tanto. Não fazia assim tanta diferença ter um esterilizador de ar, spray mata ácaros e lavagens constantes da roupa. Pimbas! Dou por mim a fazer o mesmo, a trocar lençóis e edredons de 2 em 2 dias e a esconder tudo o que é peluche, a limpar constantemente a cama dela no caso de ficar com pó acumulado ou de um fungo se ter escondido em algum sitio.

27 anos de asma ensinaram-me que não adianta fazer tratamentos caríssimos, nem comprar produtos milagrosos para as alergias. Não adianta deixar de fazer desporto ou qualquer actividade considerada normal para um não asmático porque nos deixa tontos e mal dispostos. Apenas com esforço e persistência se vence a asma. E as alergias? aprendi a viver com elas. Aos 28 anos, e depois de tomar medicação diariamente durante 18 anos, deitei tudo ao lixo. Tinha acabado de vir da farmácia com um saco pequeno cheio dos inaladores do costume. Fartei-me. Deitei tudo fora. Até mesmo o inalador de emergência. True story. Peguei na gaveta da mesinha de cabeceira e esvaziei-a no caixote do lixo.

 Comprei um fato de banho. Tinha uma piscina olímpica a 10 minutos de casa. Nunca tinha nadado numa piscina com mais de 25 metros. A primeira vez, fiz duas piscinas e parei, sem fôlego. Voltei a repetir até ficar tonta. Voltei outra vez na mesma semana e fiz o mesmo, cerca de meia hora de pára arranca.

Duas semanas mais tarde já conseguia nadar 15 minutos seguidos e dois meses depois nadava uma hora sem parar, naquela piscina fantástica que já tinha recebido os Commonwealth  Games por volta dos anos setenta. Nadava uma hora non stop na pista de velocidade intermédia e não prolongava mais o exercício porque mais do que uma hora me aborrecia.

Uns anos mais tarde recebi a prenda que, como muitas vezes já contei, foi eleita como a melhor prenda que alguma vez me ofereceram. Umas botas de caminhada. Incentivo do marido para me levar a fazer o que ele mais gostava: caminhar nas montanhas. Recusei-me no início. Disse-lhe que fazia apenas caminhadas em terreno plano. Paciente como é, fez comigo duas ou três caminhadas à beira mar, longas, mas nada que um asmático não aguentasse. Levou-me um dia para a Serra de Valongo e quem já lá foi, conhece a subida íngreme de um dos percursos. Nessa única subida tive três ataques de asma. Deitei-me no chão por duas vezes para não ficar roxa. Devo ter mesmo mudado de cor, a ver pela cara do meu marido. Um ano mais tarde, e depois de nos termos juntado a um grupo de caminhada, fizemos o mesmo percurso. Fiz a mesma subida íngreme como se de um passeio no parque se tratasse, liderando o grupo e a achar que era um campeão!

Este ano infelizmente tive que voltar a comprar um inalador para emergências. Mas até fico contente por na farmácia já nem me lembrar do nome da bomba que mais vulgarmente usam os asmáticos.


Tenho uma filha que usa inalador de manhã e à noite e gostava de poder decidir não o usar. Não sou médica, não me vejo com capacidade para decidir o que é melhor para ela. É por isso que vou a um pediatra.  Em princípio sabe melhor que eu e é importante confiar na sua opinião. Senão não ia lá.

Acredito que a mim a medicação para a asma me tenha sido essencial em alguns momentos. Mas sinto-me melhor que nunca desde que deixei de a usar.

Acredito em muitas coisas que foram determinantes para as escolhas que fiz para mim: não comer carne vermelha, não beber leite, não tomar medicação para a asma, não ir à missa, não mentir, não magoar ninguém intencionalmente...

Deixo estas decisões para a minha filha tomar quando for grande. Para já, e quando me sinto a ser como a minha mãe, a limpar o pó e a lavar roupa vezes sem conta, espero apenas não estar a tomar as decisões erradas. Mesmo que não sejam as decisões certas.


Poema para todas as mulheres extraordinárias e para as crianças que que vão crescer para ser mulheres extraordinárias

Phenomenal Woman by Maya Angelou


Pretty women wonder where my secret lies.
I'm not cute or built to suit a fashion model's size
But when I start to tell them,
They think I'm telling lies.
I say,
It's in the reach of my arms
The span of my hips,
The stride of my step,
The curl of my lips.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

I walk into a room
Just as cool as you please,
And to a man,
The fellows stand or
Fall down on their knees.
Then they swarm around me,
A hive of honey bees.
I say,
It's the fire in my eyes,
And the flash of my teeth,
The swing in my waist,
And the joy in my feet.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

Men themselves have wondered
What they see in me.
They try so much
But they can't touch
My inner mystery.
When I try to show them
They say they still can't see.
I say,
It's in the arch of my back,
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I'm a woman

Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

Now you understand
Just why my head's not bowed.
I don't shout or jump about
Or have to talk real loud.
When you see me passing
It ought to make you proud.
I say,
It's in the click of my heels,
The bend of my hair,
the palm of my hand,
The need of my care,
'Cause I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

08 novembro 2014

Pedir desculpa



Ontem fui-me deitar com uma terrível sensação de peso na consciência. Tinha sido má para a minha filha de dois anos. Fui mesmo mazinha, não há outra forma de o dizer. Sem paciência, cansada do final do dia e com pouco tempo para fazer várias tarefas, perdi a cabeça e fui mazinha. Agi até talvez até com uma pontinha de vingança e um cheirinho de crueldade.

Era tarde e ela já dormia quando desliguei a luz, encostei a cabeça na almofada e apercebi-me de algo terrível. É impossível pedir desculpa a uma criança de dois anos no dia seguinte. Não havia nada a fazer. Tinha sido mazinha e não havia medida correctiva. A não ser obviamente nunca mais voltar a fazer o mesmo. Ou corro o risco de destruir a relação que me esforço por ter com a minha filha. Desta vez tinha-me esquecido do respeito. Aquele pedacinho pequenino, apesar do tamanho, é gente que merece ser respeitada e sabe bem o que quer, o que lhe apetece e do que gosta.

Apercebi-me ao mesmo tempo que a importância de não adiar um pedido de desculpa não se limita às crianças. Aos dois anos, sinto que tenho que pedir desculpa imediatamente para que perceba ao que me refiro. No dia seguinte já não vai saber associar a nada. A um adulto podemos sempre pedir desculpa por algo que fizemos no passado, temos a oportunidade de explicar e mostrar arrependimento. Mas não é a mesma coisa do que pedir desculpa imediatamente, pois não?? Somos assim. Gente terrível.

São tantas as vezes que me zango com a Sara por ter comportamentos que eu própria também tenho: porque me dói a cabeça, porque o dia me correu mal, porque a sopa que me sabe bem todos os dias hoje não me apetece comer, porque não  quero ir dormir à mesma hora do costume ou simplesmente porque há dias em que precisamos de mais miminho do que o no dia anterior. Também há dias em que dou respostas tortas e não peço por favor depois de pedir para me passarem o sal, É importante não exigirmos dos nossos filhos a perfeição que nós próprios nunca vamos ter.

Desculpa Sarinha. Vou tentar não ser outra vez tão mazinha.