22 março 2022

Mar revolto

 - Continuas aí,  agarrada às saias! Vai para dentro, sente vergonha!

Enrolava o dedos no avental, mirando o chão, a ponta dos chinelos.

- És uma vergonha. Sua puta.

Levantou o queixo e olhou-o, de sobrancelha arqueada!

- Puta? - desvia o olhar para um grupo de senhoras do outro lado da cidade, que passeavam na esplanada, conversando junto ao mar, os maridos seguindo-as uns metros atrás, com as chaves dos carros enfiadas nos dedos e as camisolas penduradas aos ombros- Puta eu? - responde agora já de olhos e lábios caídos - As mulheres são todas putas.

Fechou a porta de casa e a falta de luz envolveu- a até à cozinha, onde sentada à mesa, olhava para a vida dos outros, que continuava na rua, através  da janela por onde entrava o sal do mar que lhe comia as paredes por dentro.

02 novembro 2021

Dias anormais

Um dia, que seria como outro qualquer, não tivesse acontecido de ser diferente, fizeram-me um elogio. Que me pareceu ser sentido mas que agora percebo que não é importante que não tenha sido.

E mudou-me acidentalmente. No dia seguinte fui comprar roupa interior cheia de renda, um vestido, uns sapatos, uma pulseira e uns brincos. Fui cortar o cabelo, vesti uma blusa bonita e fui pintar as unhas.

(- Que bom! - disse-me baixinho quando lhe contei na semana seguinte).

E desde então pinto as unhas semana sim semana não, das cores todas da imaginação. E ninguém vai alguma vez entender porque pinto as unhas. Até porque é obvio que quem as pinta é para as ter pintadas. Mas eu não. Eu pinto religiosamente as unhas de 15 em 15 dias para me lembrar, nem que seja apenas duas vezes por mês, que um dia que ia ser igual a todos os outros, não foi.

Senti. O mar salgado, a água quente do chuveiro, o sabor do pão acabado de cozer, o vento de Inverno do cimo da montanha, abraços quentinhos de amigos que não vemos há muito tempo, mesas de jantar cheias de conversas, camisolas de lã em dias frios e água fresca com limão em dias de sede de Verão. Vi libelinhas em voos rasantes pelas águas dos rios e senti borboletas na barriga, que subindo até aos ombros, voavam pelos braços até à ponta dos dedos dormentes. Seguiram-se dias sem precisar de dormir ou comer. Porque estava, muito cá por dentro, bem preenchida de insetos voadores. 

E por isso pinto as unhas das mãos. Vejo nas pontas dos dedos, as mesmas cores que vi no dia em que alguém me disse palavras bonitas. E quero poder sempre lembrar que pode haver alguém, que num dia normal, sem que esteja a contar, me vai dizer coisas boas de ouvir. Quem sabe de que cor me vou pintar nesse dia(?) que iniciando-se para ser normal, vai terminar de forma anormal e me muda, mesmo fique tudo na mesma. 

25 agosto 2021

Unhas Cor de Sereia

 Hoje parece-me ser o dia ideal para abrir uma conta no Tinder, com uma foto das minhas mãos. Se o que reza a lenda for verdade, Poseidon é grande mulherengo e faz todo o sentido que use o Tinder.

Aposto que amanhã  já tenho um date marcado para jantar ostras, num oceano qualquer. 

Poseidon enjoyed the pleasures of the flesh, seeking romance with goddesses, humans, nymphs and other creatures. Not even physical form mattered to him: He could, and often did, transform himself or his lovers into animals so as to hide in plain sight.

Fonte: wikipedia





17 junho 2015

08 junho 2015

O Meio

Um dia a minha mãe contou-me uma história depois de vir do cabeleireiro. Contou-me que a menina que lhe lavou o cabelo era muito bonita. Contou-me também que disse ao cabeleireiro "Aquela menina é tão bonita, devia ser modelo". Respondeu-lhe com um grande sorriso que era a mulher dele. E que sim era muito bonita e era modelo. Disse-me a minha mãe que não ficou minimamente atrapalhada. Que já está numa idade em que pode fazer estes comentários sem que a interpretem mal. Que já pode dizer muitas coisas sem que a levem a mal.

Quando somos novos somos fantástico a ser nós próprios, quando somos velhos somos fantásticos a ser nós próprios. O problema está no meio, é essa a parte problemática. São os anos em que temos que socializar, temos que nos acomodar e adaptar.

Diz também a minha mãe que tem sorte em ver crescer os netos, que os vê agora com olhos diferentes de quando era mãe. Eu acho que a sorte é toda minha. De ver a minha mãe com a minha filha, ambas a serem elas próprias. Sem complexos de inferioridade ou superioridade. Têm apenas interioridade.

E aqui está o segredo de sabermos que estamos bem quando somos nós próprias. Nem melhor nem pior que ninguém. Somos únicas, cada uma de nós. Há a percepção que os outros têm de nós e há a necessidade que temos de nos aceitarem. Nunca vamos deixar de ser "percepcionados"pelos outros. Mas é importante sentirmo-nos livres dessa percepção.

As pessoas não reparam tanto em nós como poderíamos pensar. As crianças nem pensam nisso e o mais velho perspicaz aprende isso com o tempo.

Humildade não é pensarmos menos de nós, é pensarmos menos sobre nós.

Já dizia a minha mãe que ser mãe de meninas é difícil

Especialmente quando nos comparam com um display para objectos à venda em lojas.




07 junho 2015

Quando o que me faz feliz me faz infeliz

Hoje consegui ler uma revista do início ao fim. Incluindo dois suplementos. Ora aqui está uma coisa que não consigo fazer há muito tempo e que me faz muito feliz. Não fosse o conteúdo de tudo o que é jornal e revista me deixar tão infeliz. Com o estado do mundo, com o estado do país e com o estado em me deixo ficar por estar tanta coisa diferente daquilo que eu acho que devia estar.

Raios lá para a forma que os outros decidiram viver a vida! Raios pela forma como deixo que isso afecte a minha!

15 maio 2015

Sinais de Luz




Não gosto de conduzir. Causa-me ansiedade estar parada em filas de trânsito, sem saber exactamente a que hora vou chegar a casa. Não gosto de esperar em sinais vermelhos, não percebo as rotundas, ultrapassagens à tangente, pressinhas, buzinadelas vingativas. Não tenho sentido de orientação (mas eu quero ir na direcção do Porto ou de Lisboa?), não tenho noção de distância (o que não ajuda muito se quero ultrapassar um carro), não percebo as rotundas (e elas não me percebem a mim), não sei estacionar (e não me estou para me esforçar muito para aprender). Não gosto da falta de civismo, do Chico Esperto, das pessoas normais que se transformam em animais atrás do volante. Deixa-me triste a agressividade de quem tem uma vida dura e que corre mal e agora vou-te tramar porque estou dentro de um carro e não me tocas e agora não te deixo entrar na fila que eu estou primeiro e vou ganhar trinta milésimos de segundo porque não de dei o jeitinho, tivesses saído de casa mais cedo, oh camelo! E a mão que está colada à buzina, pronta a entrar em acção mal fique o sinal verde por isso não te atrevas a demorar mais que uma fracção de segundo a arrancar, vê-se logo que é gaja, quem é que se lembrou de as deixar tirar a carta. Ou o tipo do BMW que tem direito a limpar a faixa toda da esquerda porque pagou um imposto especial porque tem mais dinheiro que o tipo do Fiat, e agora a estrada é só dele mesmo que eu esteja a cumprir com os limites de velocidade. Porque os acidentes só acontecem aos outros. E eu até bebi pouco e consigo-me controlar e se tocar o telemóvel atendo porque pode ser importante.

Enfim, não gosto de conduzir mas tenho que o fazer. Cinco vezes por semana pelo menos. Para cá e para lá já faz dez vezes. Se fizesse uma medição, a estatística revelava que um terço destas vezes implica enfrentar filas de trânsito. Mas em vez de medição resolvi fazer meditação. Já que tenho que estar enfiada no meio disto tudo durante uma hora, que seja a melhor que se pode arranjar.

O percurso é sempre o mesmo. Já o decorei. Todas as entradas e saídas, as faixas mais rápidas a cada hora do dia, ora para a esquerda, ora para a direita. E em vez de me irritar decidi contemplar. Como é difícil conduzir um camião ou entrar na recta da AEP vindo da zona industrial. Observo os carros e os condutores, os simpáticos, os stressados e os apressados.

Decidi que posso usar a hora que passo presa no trânsito para ser uma pessoa melhor para mim e para os outros. E chego a casa menos cansada e irritada. Desliguei o rádio que costumava ir a berrar música para não me deixar lembrar que não queria estar ali. Tenho mais silêncio e permito que os meus pensamentos, bons ou maus, me possam lembrar que é ali mesmo que eu estou em vez de outro sítio qualquer onde preferia estar.

Hoje abri espaço para deixar entrar um grande camião na minha faixa. Vi-o colocar-se à minha frente e fiquei à espera dos meus sinais de luzes de agradecimento. Fico feliz com tão pouco. E depois gesticulei com as mão para deixar entrar um carro que vinha da zona industrial. Recebi mais sinais de luzes em forma de agradecimento.

E fui para casa devagar no meio de todos os outros carros a achar que era maior que eles todos. Porque sabia uma coisa que nem todos na mesma estrada sabem. Que há alguém que agradece gestos pequeninos e que se sentiu agradecido com semelhante pequeneza.

Fui aprendendo que até no meio da confusão, se consegue fazer reflectir uma luz.


04 maio 2015

Estão mesmo a pedi-las



Narizes. Só provam como fomos mal construídos. Saem demasiado para fora, mesmo a pedir que alguma coisa lhes acerte. Fazia muito mais sentido termos apenas dois buracos na cara, não era preciso esta protuberância no meio do rosto que parece estar sempre a pedir que lhe acertem. Aposto que os macacos têm menos acidentes com o nariz.

Não faz sentido e não me conformo. Quem é que já não levou com algo no nariz! Um punho, uma bola, uma mão de criança descontrolada, uma porta. Ou uma bancada de cozinha.


Hoje descobri que fracturar o nariz dói que se farta.

E faz barulho. Hoje vou ter pesadelos com o som CRAAC!

26 abril 2015

A minha professora espiritual

Surpreendida há pouco tempo pela pergunta "Qual é o seu lema de vida?", e depois de pedir uns segundos para poder pensar, respondi que depois da minha filha nascer, decidi tentar ser uma pessoa melhor. Sem a certeza que fui compreendida, dei a mais honesta das respostas sem nunca sequer ter reparado que tinha de facto um lema de vida.

Nunca reflecti muito sobre o que significava ser mãe, ou porque é que o queria ser. Mas descobri depois de ela nascer que merecia uma boa mãe. O que quer que seja que isso signifique.

Não era justo que ela tivesse um mãe sempre de mal com a vida, cansada, a beber um copo de vinho no final do dia porque nada corre como devia. A resmungar mesmo quando o céu está bonito, ou deitada no sofá porque doem as pernas.

Se eu ia ser um exemplo a seguir, queria ser o melhor que podia ser. Tinha pelo menos que tentar. Tentar sorrir mais, dizer obrigada e por favor mais vezes, pensar mais no bem estar dos outros, comer menos do que me faz mal, sair do sofá para apanhar vento e luz, não desperdiçar e não perder tempo com o que não é importante.

A minha filha tornou-se a minha professora espiritual. Tenho agora uma pequena voz  que me faz ver o que está bem e o que está mal. É uma voz que não vem de um qualquer lugar imaginado. É uma voz real, de alguém que se senta ao meu lado e que há dois anos e meio me ensina como é bom quando tentamos ser uma pessoa melhor.

Aprendo com ela porque me imita a pôr creme na cara e a lavar os dentes. Porque repete as minhas expressões e tem o mesmo sotaque que eu. É como um espelho onde vejo o meu bom e o meu mau. Porque um dia vai imitar o que vê quando trata os outros com ou sem bondade ou generosidade. Quando escolher os seus passatempos, a comida que põe no prato, se põe lixo no chão. Vai decidir se cumprimenta os vizinhos que se cruzam com ela no elevador, se vai gostar de aprender, se vai ser importante para ela esforçar-se e nunca desistir. O tamanho da auto estima e que importância terão os amigos. Se vai respeitar quem é diferente dela.

Aprendo com ela a abrandar e que é bom não fazer nada. Ou ficar uma tarde toda a empurrar um baloiço num dia cheio de sol e de vento. Aprendo que é bom não ter um dia de férias todo planeado e cheio de coisas para fazer. Que é bom fazer tudo mais devagarinho. Ensinou-me a aproveitar todos os momentos que passo com ela.

Quando regressa da escola de triciclo, ela mostra-me todas as flores e ervas que nascem nas fendas do cimento do passeio, os pedaços de plástico pendurados na árvore, o caracol que sobe o muro, as pedrinhas que vai guardando no bolso, os carreiros de formigas e mais uma dezena de coisas que nunca tinha visto. Faz pelo caminho perguntas que nem sempre sei responder e que me ensinam que é bem mais importante tentar descobrir como a responder do que tentar saber qual a razão de ser ou o que fazemos aqui. O que interessa o sentido da vida quando nos perguntam "Como é que tens a certeza que não há um monstro nas escadas?".

Tenho em casa um zen master. Deu-me asas para voar. E ensino-lhe pouco porque é ela que me ensina mais a mim.









17 março 2015

Ser estranho

fonte: www.forbes.com

Quem é estranho? As pessoas com passatempos que eu nunca ouvi falar ou que nunca teria a coragem de experimentar, os que coleccionam coisas que eu desconheço, que perdem o nariz e os dedos a subir ao Everest, o prémio Nobel da física, as pessoas que tanto têm problemas como soluções, as pessoas que não são como eu, as pessoas que dizem o que pensam. As pessoas que são diferentes e não querem ser iguais. As pessoas que admitem gostar de estar sozinhas. 

Alguém que é estranho surpreende quando tem sucesso. Mas um estranho não é burro, é apenas estranho. 

Quando um estranho mostra a sua estranheza descobre que há mais estranhos como ele ou há alguém que entende a sua estranheza ou que a admira. E descobre até que há clubes e comunidades para estranhos iguais a ele.

Um estranho acaba sempre por descobrir que custa menos ser como é do que tentar ser outra coisa qualquer apenas para ser como os outros. Ser autentico é menos cansativo do que estar sempre a tentar encaixar.

E porque é que há estranhos que querem ser normais? Por influência social (medo de fazer figura de idiota), porque as pessoas normais sabem mais que eles (medo de fazer figura de idiota) ou porque sentem pressão para agir como a maioria, porque se não o fizerem nunca vão chegar a lado nenhum (ou seja, medo de fazer figura de idiota). 

Depois há os estranhos com convicção. Defendem as suas ideias mesmo que vão contra as crenças mais comuns, preocupam-se menos com a opinião dos outros, vivem de auto motivação e são destemidos. Quem vive a vida a fazer o que está nas regras, a fazer o que sempre foi feito, e com medo de arriscar nunca se vai destacar.

Conheço três tipos de estranhos:

- os infelizes, porque não sabem como parar de ter medo de fazer figura de idiota;

- os felizes, porque aceitam ser como são, mantêm low profile e vivem a vida sem tentar ser outra coisa qualquer. Os outros gostam deles mesmo que achem que por vezes fazem figuras de idiotas;

- os felizes bem sucedidos, porque à sua estranheza conseguiram juntar inteligência e coragem, porque não querem saber o que os outros pensam, não têm medo de tentar, vêm o mundo como um infinito de possibilidades.

São os estranhos que se destacam, os normais passam despercebidos.

Vamos ensinar aos nosso filhos a ser estranhos. Até que ser estranho seja o normal. 


06 março 2015

Gostava que a minha filha soubesse




Como pessoa, esforça-te por ser boa e não a melhor.

Dar é melhor que receber.

As melhores prendas que vais receber não são as que vêm de uma carteira cheia mas sim de um coração grande.

A vida não vai ser nada do que sonhaste, vai ser diferente mas nem por isso melhor ou pior.

Adapta-te, muda e nunca deixes de fazer nada porque tens medo.

A certa altura da vida, todos vamos dizer palavras que magoam. Pede desculpa.

Manter a harmonia é mais importante do que provar que tens razão.

Ouvir é mais importante do que falar. Mas nunca fiques em silêncio quando as tuas palavras são importantes.

Segue o teu coração. A lógica nem sempre te traz felicidade.

 O tempo não volta atrás e nem sempre há remendo para as asneiras que se faz. Assume as decisões que tomaste.

Atravessa a estrada pela passadeira,não deites lixo no chão, não passes à frente de ninguém numa fila de espera.

O poder de oratória vai ajudar-te a conquistar os outros. O da escrita a conheceres-te a ti própria.

As pessoas gostam de ti mesmo que não penteies o cabelo.

Respeita o teu corpo. Pratica desporto, alimenta-te com consciência.

A paz interior não tem preço.

Quase todas as mulheres ficam bem de preto.

Os sapatos que calças dizem muito sobre ti.

Descobre um bom dentista.

Uma mulher para ser bonita não precisa de sofrer.

Gasta mais tempo a ler do que a escolher o que vais vestir de manhã.

Nunca saias de casa com o cabelo por lavar.

As mães raramente sabem o que os filhos precisam para serem felizes. Mas acredita que se esforçaram.

















13 fevereiro 2015

Um outro gostar de mim

Em Abril de 2008 escrevi um texto neste blog que começava com " Gosto muito de mim."

Nesse ano ainda não conhecia o meu marido e era muito bom gostar assim de mim. Hoje continuo a gostar muito de mim mas tenho mais a quem gostar.

E porque é São Valentim este texto vai começar com "Gosto muito que me faças gostar de mim".

Gosto de passar a mão no teu cabelo. Gosto do cheiro do teu pescoço e das tuas mãos de dinossauro. Gosto das tuas costas cheias de sinais. São o meu céu cheio de estrelas.

Gosto das histórias que me contas sem teres jeito nenhum. Adoro todas as que contas, as que não entendo e que tens de repetir, as estranhas, as tristes e as que vêm cheias de preconceitos do balcão da tua loja. Gosto de te ouvir rir quando vês um filme e do ar de gozo com que olhas para mim quando acordo cheia de sono de manhã.

Gosto que me desafies a ser uma pessoa melhor. A não desistir, da ingenuidade de acreditar que o amor resolve tudo, que dias melhores virão e que um dia vamos poder passar mais tempo juntos. Gosto que me ensines que vencer as minhas limitações depende só de mim e que o pouquinho que temos vale tanto.

Gosto de saber reconhecer no teu ar carregado uma preocupação que te custa partilhar e que não te zangas quando insisto que tens que me contar. Gosto que não insistas comigo quando vês a minha tristeza e  me recuso a falar.

Gosto quando vestes camisas às riscas. Gosto da paixão que tens pelo teu trabalho. Gosto das rotinas que criamos na nossa casa, de saber o que fazes e o que esperas de mim. Gosto que os dias sejam todos iguais e outros nem tanto assim.

Gosto dos teus amigos. Tens sorte de ter quem te queira bem. Gosto do teu coração enorme onde cabe tanta gente. Gosto que tenhas guardado nele um pedaço para a minha família.

Gosto que sejas bom pai e que vejas a tua filha como um desafio para ser um homem melhor. Gosto que a ensines a correr, a andar de trotinete, a sujar a roupa , a trepar aos muros. Um dia vai subir às árvores tão bem como tu. Vai trazer para casa sacos cheios de laranjas com me trazes agora a mim.

Gosto que durmas do outro lado da cama e que deixes o meu lado só para mim. Gosto que entendas que preciso muito do meu espaço, que preciso de tempo para estar sozinha e que muita gente me causa confusão. Mesmo que tu gostes exactamente do oposto. Gosto que me incentives a procurar os meus amigos quando estou a entrar em depressão. Gosto do teu ombro antes de dormir, do calor do teu corpo e do teu coração.

Gosto que respeites a minha necessidade de escrever e espero que se note que desde que te conheço fiz um esforço para não escrever sobre ti.

Neste dia de São Valentim não te vou dizer uma única vez que gosto de ti. Porque todos os dias me fazes gostar tanto de mim.




06 fevereiro 2015

Repostas que o mundo nos dá todos os dias




Ser introvertida é uma grande desvantagem e não me interessa o que me possam dizer para tentar provar o contrário. Mas se em vez de desperdiçar a minha energia para tentar mudar, a tivesse usado para aproveitar as vantagens de ser o que sou, passavam melhor as noites, era mais feliz (trazia mais felicidade aos outros) e desperdiçava menos tempo a ver imperfeições.

Porque se afinal, aquilo de que me orgulho mais em mim, é o que me define como introvertida e se gostando de mim os outros gostam mais de mim também, não interessa nada ser extrovertida ou introvertido. 

É tão óbvio que custa a acreditar o tempo imenso que me demorou a perceber. 

Felizmente tenho livros para ler, filmes do Woody Allen para ver, o silêncio para me responder, e muita gente à minha volta que em conversas sem intenção me diz tudo o que preciso para me ficar a conhecer. Basta estar atenta, ouvir quando há discurso e também o que o silêncio nos quer dizer. O mundo oferece-nos todas as repostas que precisamos para sobreviver. 


Obrigada ao Ricardo, que depois de uma hora a conversar, me disse que "desta vez foi tudo bastante mais claro". 

31 janeiro 2015

Meninos


Se eu achava que educar uma menina era complicado, bastou levar os meus dois sobrinhos à ToysRUs para perceber que é tão difícil como educar meninos. Ufa! Que raio de pressão exerce a estereotipação dos géneros.

As lojas de brinquedos metem nojo. E mais nada!

30 janeiro 2015