31 março 2007

Ter Medo do Escuro

Acordei às quatro e meia da manhã por causa de um pesadelo. Acontece-me muitas vezes ter sonhos muito violentos e não consigo perceber onde vou buscar ideias para histórias assim.

Levantei-me muito incomodada e fui sentar-me na sala. Tinha medo de voltar a fechar os olhos e ver aquelas imagens outra vez. Bebi um copo de água e quando me sentia mais calma fui deitar-me outra vez. Queria ter alguém em casa que se sentasse na minha cama, me desse a mão e que me dissesse que podia voltar a dormir sem receio. Mas não estava ninguém no meu quarto e eu estava com medo do escuro e da casa vazia.

Há alturas em que me sinto sozinha. E não é quando não tenho companhia para ir ao cinema, ou para ir de férias ou para tomar pequeno-almoço à beira-mar ao Domingo de manhã. É quando alguma coisa corre mal ou quando alguma situação difícil me causa ansiedade. É quando não tenho alguém para me fazer uma festinha e para dizer que vai ficar tudo bem.

Às vezes custa ter que passar por tudo desacompanhada. Mas só me faz falta alguém quando estou mal, porque quando está tudo bem, prefiro estar sozinha. E não me parece que seja esta a lógica para procurar companhia. Vou ficar à espera de que conhecer alguém com queira estar quando estou bem e quando estou mal. E até lá, vou ter que conseguir adormecer sozinha depois de um pesadelo.

30 março 2007

Águas de Março



Música para sexta-feira à tarde!

29 março 2007

Artigo de Opinião no The Guardian - 29/03/2007

Sou ateia e porque isso, por vezes, me causa alguma confusão, gosto de ler o que escrevem aqueles que sabem mais sobre o assunto do que eu. Costumo dizer que sou ateia porque nasci assim. Não havia religião em minha casa e eu nunca senti que me fizesse falta.

Mas sou uma ateia muito pouco coerente porque, apesar de não acreditar em deus, gosto daquilo que a religião dos outros me oferece. De outra forma não teria ido ouvir a Paixão Segundo S. Mateus, de Bach, ao Concertgebouw, em Amsterdam. Não podia ir às festas populares de Moledo do Minho, onde ponho sempre uma moeda ao santinho mais bem enfeitado. Não comemorava o Natal, a única altura do ano em que a minha família toda se junta. Não podia sonhar com a viagem que quero fazer a Roma para ver a Capela Sistina.

Hoje li um artigo muito interessante no The Guardian - The anti-God squad, que refutava aquilo em que sempre acreditei: que sem religião, não teríamos as grandes obras de arte que temos no mundo.
“Professor Dawkins was offended by the notion that we need religion for great art. Michelangelo was simply forced to work for whoever had the money, and when he painted the Sistine Chapel, power and wealth were firmly in the hands of the Catholic church. How sweet, he wondered, would Haydn's Evolution Oratorio or Beethoven's Mesozoic Symphony have sounded?”
O artigo começa com a seguinte pergunta:
Would we be better off without religion?

E termina com uma resposta que dou muitas vezes a quem fica admirado por ser uma pessoa "sem fé". A bondade não vem da religião. Vem de dentro de nós.

"The real question is whether the best of humanity is already inside us or whether it needs faith to bring it out. For Mr Hitchens it is possible to have the good without the faith (and hence also without the interfaith wars in Northern Ireland, Bosnia, Iraq and the rest). "It's called culture."
Mas a religião não fará parte da cultura? Eu sinto que a religião católica faz parte da minha, mesmo sendo ateia.

Stone Throwers

The Theory of Moral Sentiments
by Adam Smith, 1759

The causes of pain and pleasure, whatever they are, or however they operate, seem to be the objects, which, in all animals, immediately excite those two passions of gratitude and resentment. They are excited by inanimated, as well as by animated objects. We are angry, for a moment, even at the stone that hurts us. A child beats it, a dog barks at it, a choleric man is apt to curse it. The least reflection, indeed, corrects this sentiment, and we soon become sensible, that what has no feeling is a very improper object of revenge. When the mischief, however, is very great, the object which caused it becomes disagreeable to us ever after, and we take pleasure to burn or destroy it.
[...]
The object, which resentment is chiefly intent upon, is not so much to make our enemy feel pain in his turn, as to make him conscious that he feels it upon account of his past conduct, to make him repent of that conduct, and to make him sensible, that the person whom he injured did not deserve to be treated in that manner. What chiefly enrages us against the man who injures or insults us, is the little account which he seems to make of us, the unreasonable preference which he gives to himself above us, and that absurd self-love, by which he seems to imagine, that other people may be sacrificed at any time, to his conveniency or his humour. The glaring impropriety of this conduct, the gross insolence and injustice which it seems to involve in it, often shock and exasperate us more than all the mischief which we have suffered. To bring him back to a more just sense of what is due to other people, to make him sensible of what he owes us, and of the wrong that he has done to us, is frequently the principal end proposed in our revenge, which is always imperfect when it cannot accomplish this.

Photo: Palestinians throw Molotov cocktails at Israeli border policeman, during clashes in the West Bank city of Hebron, Sunday Feb. 11, 2007. Palestinians clashed with Israeli police in Jerusalem and the West Bank in a new wave of protests against ongoing Israeli construction near a flash point Jerusalem's Old City holy site. (Associated Press Photo/Nasser Shiyoukhi)

28 março 2007

Unter den Linden


Aviso

A pedido de algumas pessoas, retirei o shinystat, esse big brother dos blogs. A partir de agora não vou saber quem me visita.

De qualquer forma, a partir da próxima semana vou deixar de ter tempo para estas coisas do blog.

Também mandei o Claudipédia ao cabeleireiro, mudar de cor de cabelo.

Cláudia Alienada do Mundo à Sua Volta

Hoje à tarde estava no trabalho, em frente ao meu laptop, concentrada a fazer não sei o quê, quando me apercebi que os meus colegas rogavam pragas aos informáticos que nos tinham feito alterações na rede esta manhã. Ouvia uns ruídos de fundo. Mas como vivo tão fechada no meu mundinho, ou a sonhar acordada ou concentrada no que estou a fazer, não percebi bem o problema. Sei que ninguém conseguia imprimir e estava tudo a tentar compreender qual das impressoras funcionava, mas nenhuma delas cooperava. Quando chegaram à conclusão que não sabiam o que fazer, resolveram que iam telefonar ao informático para lá ir resolver o problema.
Foi nessa altura que resolvi levantar a cabeça e tirar o nariz do meu ecran. Levantei-me e pus papel nas impressoras.
Afinal não foi preciso chamar o informático.
Quando estou a trabalhar, presto pouca atenção às conversas que me rodeiam. Acredito que se for do meu interesse, me dirigem a palavra directamente. Isto faz de mim uma péssima coscuvilheira. Sou sempre a última a saber as coisas.

27 março 2007

Para variar do habitual mau humor matinal

Ultimamente sinto-me tão cansada que durmo como uma pedra. Tenho sempre muito frio antes de adormecer e ontem cobri-me com dois edredons, um cobertor, um pijama de Inverno e umas meias grossas. Acordei de manhã e, quase a engolir a língua de tão seca que tinha a boca, o meu primeiro pensamento foi: Estou pronta para ser servida à mesa de alguém, numa bandeja de prata e com uma laranja na boca. Estava muito mal disposta mas mesmo assim, e pela primeira vez na vida, levantei-me e caminhei até ao chuveiro, a rir-me de mim própria.

Cinzento Escuro

Já por duas vezes escrevi crónicas por antecipação. São textos que escrevo de acordo com as expectativas que tenho em relação a alguma situação do futuro próximo. É tipico de quem sonha tanto acordado, especula sobre os possíveis cenários e acredita que o melhor deles vai acontecer.

Da última vez acreditei que, e de acordo com a minha interpretação do Yin Yang, estava a entrar numa fase positiva onde só os cenários óptimos podiam acontecer. Escrevi como sería preferível que as coisas boas e más se alternassem, para que o meu coração sofresse menos picos e baixas emocionais. Pensava que estava a sair de uma fase em que tudo me corria mal e que agora entrava noutra onde tudo corria bem.

Que erro tão grande. Na verdade, algumas coisas começam a melhorar mas outras continuam na mesma. E esse tal acontecimento que provava a minha teoria do "depois de uma época má, uma época boa seguirá" não ocorreu.

Não estou no preto nem no branco. Estou numa fase cinzenta.

26 março 2007

Subtítulo

Aceito sugestões para um novo subtítulo para o Claudipédia. Não gosto do actual – Porque Tenho a Mania Que Sei Tudo – e gostava que, depois de lerem as minhas crónicas, me dissessem qual o mais indicado.

Louisiana Museum for Moderne Kunst - Humlebæk

Exposição temporária - Cindy Sherman
Sherman manipulates her own body by means of make-up, clothes and artificial body parts, and stages herself as various figures that she invents or re-invents, after which she photographs herself in her studio. (…)Her whole idea with the stagings is to explore the cultural and social stereotypes as they are presented for example in magazines, advertisements, films and classic paintings.
(...) In her staged works Sherman questions the male gaze at women; women too look at themselves from a male point of view, as the only point of view that exists in a patriarchal society. The repetition and variation take the form of a subtle analysis of female identity. The fantasies (individual as well as collective) and the forces unleashed by these fantasies, emerge through Sherman’s stagings as sometimes playful, sometimes sombre, repulsive and horrifying.



Vaidade

Esta semana vou vestir um fato todos os dias para ir trabalhar. Vou pôr brincos, uma camisa bem passada a ferro e vou-me pentear. Vou arranjar as unhas, vou hidratar bem a pele e vou às compras. É a última semana que vou ter que escolher o que vou vestir pela manhã.

Já trabalhei muitas vezes de uniforme e sei que não traz nada de positivo à vaidade de uma mulher. Mesmo a uma mulher como eu que se preocupa pouco com a aparência.

Em empregos anteriores adoptei uma técnica para superar o desgosto de me sentir feia todos os dias. Nunca me olhava para o espelho antes de mudar para a minha roupa. Desta vez acho que vou adicionar mais uma. Vou começar a enfeitar-me mais nos dias em que não trabalho.

Não sei porque é que estou tão incomodada com isto. Nem me estou a reconhecer. Desde quando é que a vaidade me levou a algum lado?

24 março 2007

Crónica O Meu Casaco Verde Tropa

Quando era adolescente, passei uma fase em que andava pela casa à procura de coisas para vender na feira da Vandoma, no Porto. Ia com a S. tentar ganhar uns escudos com aquilo que os nossos pais já não queriam. Cheguei a vender discos do meu pai sem ele saber, mas não faz mal porque até ao dia de hoje a coleção de música do meu pai está fechada num armário a ganhar pó. Ele nunca sentiu falta dos discos de vinil, que de qualquer forma já niguém ouve.
Numa dessas manhãs de sábado, depois de vendermos os nossos trastes, seguimos para a Rua Escura, essa zona agradável da Sé do Porto. Fomos a uma loja que vendia roupa da tropa em segunda mão. A S. comprou umas calças e eu um casaco muito roto e sujo.
Chego a casa. "-Olha o que eu comprei!". A minha mãe ia desmaiando mas em vez disso, esticou o braço e mandou por o casaco na ponta da cruzeta que segurava com a mão. Enfiou o casaco na máquina de lavar, sem nunca lhe tocar, e lavou-o três vezes a temperaturas altas.
Lembro-me de levar esse casaco para a faculdade de economia, no meu primeiro ano e de deixar muita gente chocada. Atraía muitos olhares os buracos nos cotovelos daquele casaco.
Li na autobiografia do Marilyn Manson (essa grande obra literária) que é muito fácil chocar as pessoas e que pode ser bastante divertido tentar fazê-lo.
Ainda hoje não consigo deixar de me espantar de como é fácil chocar ou surpreender as pessoas. Mas também é verdade que há muita gente que consegue ver através do roto do casaco, mesmo que outras tantas não o consigam fazer. E é por isso que tenho amigos tão diferentes de mim.

22 março 2007

Hun var aldrig alene (She was never alone)
Kathrine AErtebjerg 1969
Statens Museum for Kunst - Copenhaga

Crónica Sábado à noite em Berlim (versão reduzida)

Queria escrever sobre Sábado à noite em Berlim mas não sei se consigo. Foi tão irreal que não o consigo descrever.

Numa festa em casa de um amigo do M. conheci o Ivan e poucos minutos depois pensei que era amor à primeira vista. Comecei a ver crescer-lhe asas nas costas e uma auréola luminosa. Mas ele tinha que ir a outra festa e eu tinha que ir com o M. Tive que deixar aquele sérvio com cara de anjo e voz de melodia ir embora.

Pedi ao Ivan para ficar com o número do M. e para ir ter connosco mais tarde. Cheguei ao 103, onde tocava uma música irritante e, pouco tempo depois, o meu anfitrião em Berlim atende o telemóvel. Depois de uma conversa em alemão, ele desliga o telefone e diz-me com um sorriso de gozo na cara "-Ele vem aí".

Trocamos beijos com sabor a framboesa, como nos tempos do liceu, tenho a certeza que toda a gente se lembra como são, doces e com a textura do veludo. Quando nos apercebemos que já toda a gente tinha ido embora, ele pergunta-me se quero ir beber um chá "-I have ginger tea, mint tea..." "-I like mint tea..."

Quando saímos já estava a ficar de dia. Ele tinha o carro estacionado à porta e fomos até casa dele com As Bodas de Figaro a tocar no leitor de Cds. Estacionou o carro à porta de casa e perguntou-me "-Would you like to climb this hill? You can see Berlin from the top." Subimos ao topo e ficamos enconstados à estátua, a olhar para o pouco da cidade que se conseguia ver.

Em casa, bebemos chá, ouvimos música e ele leu-me textos do Oscar Wilde. O CD parou de tocar e as minhas pestanas ficaram pesadas. "-You only need six steps to be in bed"

Adormecemos abraçados enquanto o Ivan passava os dedos no meu cabelo e me dava beijinhos. Acordamos de manhã colados um ao outro pelo calor e transpiração do sono.

O Ivan levou-me a casa do M., e explicou-me porque é que gostava da ópera que estavamos a ouvir. Não me lembro de nada do que disse. Sentia que a noite tinha sido terrível e que o Ivan tinha detestado estar comigo.

Agora que penso nisto já não me sinto mal. Ele vai esquecer-se rapidamente desta noite e eu vou lembrar-me dele para sempre.

21 março 2007

Crónica Férias

Chegar a Copenhaga vinda de Berlim é como fazer uma viagem ao século XXII. Aterrei num aeroporto todo limpinho, onde um lourinho extremamente simpático me vende um bilhete de comboio par ao centro. Ao contrário dos alemães que não falam senão alemão, este rapaz explica-me tudo num inglês perfeito e com um grande sorriso deseja-me "have a good evening". E, apesar de um pequeno precalço, acabou mesmo por ser.
Entro no comboio muito moderno, numa estação sem os grafitis e a escuridão das estações de Berlim, e quando chego à estação de Norreport, a minha amiga telefona-me a avisar que uma colega me vai buscar porque ela não pode. Eu só tinha que esperar uns minutos.
1 hora depois
Com as mãos vermelhas e inchadas do frio e a tiritar, desisto de esperar. Faço aquilo que pensava ser impossível e entro no MacDonalds para descongelar e para comer (só as batatas fritas porque os hamburgueres nem que me paguem). Começa a nevar. Nunca gostei tanto do MacDonalds e tão pouco da minha amiga.
1 hora mais tarde...
Parece que agora ela me vem buscar. Uma série de avarias de telemóvel não deixaram que a mensagem chegasse à colega que supostamente me ia buscar.
A S. redimiu-se. Para compensar as horas de espera leva-me a comer uma grande fatia de tarde de framboesas com natas e um chá, num café fantástico numa praça muito bonita.
Conversamos até nos doer a língua, passeamos pelas ruinhas da cidade e voltamos para casa.
O rapaz da estação afinal tinha razão. I did have a good evening!

Berlim (mais uma vez)

O fim-de-semana que passei em Berlim fez-me lembrar a Cláudia que era até há cinco anos atrás.
Digo às vezes na brincadeira que quando começo a achar que me estou a tornar chata e aborrecida, penso na minha tatuagem. Representa a Cláudia que não me quero esquecer que existe. É como um simbolo para mim, porque me lembra de uma altura em que era mais impulsiva e menos preocupada com as consequências.
Estes dias em Berlim fizeram-me ver que a Cláudia de antigamente ainda existe. Agora até pode estar escondida mas assim que passar esta "depressividade", ela sai cá para fora outra vez.
PS - não tenho tempo para rever textos nem erros nas crónicas dos próximos dias.

Já estou em Copenhaga mas com acesso limitado à internet




A Berlim quero voltar em breve e a Copenhaga vou voltar quando ganhar a lotaria.

Em Berlim vou dormir durante o dia e sair à noite. Em Copenhaga vou fazer compras durante o dia e sonhar em fazer compras durante a noite!

18 março 2007

As férias são uma ilusão

Não tenho tido tempo para escrever crónicas porque estou muito cansada.

Mesmo estando de férias não consigo descontrair nem consigo deixar de me sentir triste. Adorei Berlim mas vou sair daqui deprimida. São contradições típicas da Cláudia. Diverti-me imenso mas estive o tempo todo a tentar não chorar. Estou cansada de mim própria e parece que nem de férias consigo descontrair.

Já há muito tempo que me apercebi que a minha tristeza não tem razão geográfica, e talvez já devesse ter aprendendido que posso mudar de lugar mas não me posso mudar a mim.

16 março 2007

Berlim Dia 1




Kaiser-Wilhelm-Gedachtnis-Kirche

Museu Judaico (memorial ao holocausto)

Potsdamer Platz

Março 2007

O mês de Março de 2007 vai ficar marcado como o mês das emoções. Esta semana recebi o primeiro sinal a indicar que o meu regresso a Portugal talvez tenha sido boa ideia.

Um dos muitos motivos que me fizeram regressar foi a insatisfação profissioal. A sensação que podia fazer mais e que as oportunidades disponíveis a uma imigrante portuguesa eram limitadas. Senti que não havia interesse em investir na formação de um trabalhador que a qualquer momento podia ir embora.

Regressei apesar dos avisos dos meus amigos sobre a situação económica em Portugal. Não me acreditava que podia ser tão mau como vim a descobrir que é. Precariedade, salários baixos, a demora dos processos de recrutamento e taxa de desemprego muito alta.

Dia 7 fiz trinta nos e fiquei triste. Não pelas três décadas que já passaram mas pelo pouco que consegui fazer neste período de tempo. Hesitei muitas vezes, tomei algumas decisões erradas e não investi numa carreira. Fui vivendo sem fazer planos para o futuro e deixei as coisas irem acontecendo.

Dia 2 de Abril de 2006 aterrei no aeroporto Francisco Sá Carneiro com 4 anos de vida na mala e muita humidade nos olhos.

Dia 2 de Abril de 2007 começo um projecto profissional novo, com algumas das características que sempre procurei num emprego.

Senti esta proposta de trabalho como um voto de confiança na minha capacidade para aprender e para desenvolver capacidades que sei que tenho.

E foi essa confiança que uma organização teve em mim que me devolveu a esperança de que um dia vou acordar de manhã com a sensação as opções que tomei me levaram onde eu quero ir. Ainda não cheguei lá mas estou a caminho.

PS – Muito poucas coisas acontencem por sorte ou por mero acaso.

(escrito no aeroporto de Londres onde tive que esperar 6 horas pela ligação para Berlim)

14 março 2007

Claudipédia de Férias

Caros leitores,

Estou ausente para férias até dia 25 de Março. Não sei se vou ter acesso ao meu blog ou paciência para procurar um internet café, mas vou tentar actualizar o Claudipédia.

De qualquer forma, tenho a certeza que 10 dias de férias vão dar origem a muitas crónicas.

E quando voltar tenho novidades para contar.

Até dia 25 (ou antes!)! Beijinhos a todos.

13 março 2007

A Gaveta das Meias

Desde que me mudei para casa dos meus pais que sou incapaz de seguir o ciclo da lavagem da roupa. E foi esta a maior alteração na minha vida doméstica. Por não ser eu a tratar da roupa, nunca sei em que fase está aquilo que quero vestir. Pode estar para passar a ferro, no cesto da roupa suja, pendurada a secar...nunca sei. Tenho um acordo com a minha mãe para que a minha roupa não seja guardada dentro do armário. Depois de passada a ferro fica dobradinha em cima da cadeira do meu quarto. E até eu me dar ao trabalho de a arrumar, alí fica ela. E como sou muito desarrumada, tenho a certeza que muitas peças de roupa nunca saíram de lá. Este acordo foi feito para evitar que eu retire tudo do armário para encontrar o que quero. Se sou eu que as guardo, já sei onde estão. Na semana em que este acordo entrou em vigor, tinha dezenas de cruzetas penduradas por todo o lado. A minha mãe não era capaz de deixar tudo espalhado pelo quarto, como eu fazia, e insistia em pendurar tudo, mas, respeitando o nosso acordo, não as punha dentro do armário. Gosto muito da forma como a minha mãe respeita os acordos que lhe imponho, estes pequenos abusos à hospitalidade dos meus pais.

O que me diverte mais são as coisas que encontro dentro da gaveta das meias, e que não me pertencem. Aposto que hoje o meu pai saiu de casa com as minhas soquetes pretas, porque eu fui ao ginásio com umas meias que nunca tinha visto antes e que me ficam grandes.

Gosto de pensar na animação que proporcionei à minha roupa interior quando me mudei para cá. Quando me vou deitar imagino as festas nocturnas dentro da gaveta, onde as minhas cuecas piscam o olho às meias desconhecidas e os soutiens convidam para dançar uns collants nunca vistos. Deve ser fixe morar naquela gaveta, sempre a receber visitas.

12 março 2007

How to Cope With Depression

Crónica Opções de Vida

Em conversas leves sobre sonhos para o futuro, eu digo sempre que se algum dia tiver filhos, se ivão chamar Sara, se fosse menina e Miguel, se fosse menino.

A Sara e o Miguel são os meus melhores amigos. Estão muito distantes agora, não só em distancia fisica mas talvez um pouco distantes porque há muito tempo que deixei de permitir a entrada na minha vida interior. E também porque é assim mesmo. Os adultos vão-se separando naturalmente, sem que com isso deixem de ser amigos e de ter a mesma confiança.

Ainda espero um dia poder homenagear as duas pessoas que mais influencia tiveram, fora da minha família, na minha formação como pessoa. Porque me ensinaram muita coisa. Coisas como música, livros, filmes mas mais importante do que isso ensinaram-me valores que vão ficar comigo para sempre. Ensinaram-me a ser uma pessoa melhor.

Acho que hoje tive a minha primeira crise existencial pós-trinta. Porque tenho medo de, por começarmos a ter vidas cada vez mais diferentes, eu me separe cada vez mais das pessoas que mais gosto.

Às vezes sinto que vou ficando para trás.

10 março 2007

The End of The World As We Know It



Às vezes basta um e-mail e Kabuum! It´s the end of the world as we know it!

Internet Junkie a Ressacar

Estou sem internet em casa e não sei quando me vão resolver o problema. Não sei quando terei oportunidade de pôr aqui outra crónica porque não tenho pen para passar o que escrevo do meu computador para outro.

Vou tentar resolver o problema o mais rapidamente possível porque a vida sem internet não vale a pena ser vivida.

Nem sei o que fazer a mim própria só de pensar num fim-de-semana inteiro sem internet...

O que é que as pessoas normais fazem com o tempo livre?

07 março 2007

Afinal...o melhor foram as prendas

E foi depois da lasagna da Dona Judith, do gelado de bolacha da Eva, do bolo de manteiga com cobertura de chocolate Lindt, de duas garrafas de tinto do Douro e de uma de Espumante Murganheira Reserva Bruto, que a família Antunes se recolheu aos seus aposentos, muito enjoada, mas muito bem disposta.
Amanhã volto à vida normal. Afinal hoje, quando me olhei de manhã ao espelho, estava tudo na mesma: o meu cabelo continua um ninho de ratos, continuo a gostar de ouvir musica, não me saber vestir, continuo com celulite, o meu sinal no peito do lado esquerdo ainda está no mesmo sítio, a balança acusa o mesmo peso, tenho as mesmas rugas nos olhos, as mesmas borbulhas no queixo, o mesmo cobertor branco em cima da cama, os mesmos livros de língua portuguesa na prateleira de baixo e os de língua inglesa na prateleira de cima, o mesmo carro à porta, os mesmos chinelos debaixo da cama, os mesmos bons amigos, as mesmas amarguras, as mesmas angústias, o mesmo prazer em beber um copo de vinho tinto, as mesmas dúvidas, o amor pelos mesmos homens, o mau humor de manhã e os disparates depois da caneca de chá que me desperta e ainda tenho vontade de fazer as mesmas coisas.

Afinal fazer trinta anos é uma grande treta.

06 março 2007

23h - Faltava Uma Hora

- Oh Mãe, temos mesmo que esperar mais uma hora? Se pensarmos bem, em Espanha, mesmo aqui ao lado, já é meia-noite! Não podemos beber uma taça de Champagne agora?

- Pois, e se estivesses na Nova Zelandia, já tinhas quase 31!!!!

O apocalipse prenunciado por e-mail


Hoje recebi um e-mail de uma amiga que se intitulava “O último dia”. Adorei esta visão apocalíptica das minhas últimas horas nos vinte.

Cinéfilos de Café


Sentei-me no Café Ideal, esta manhã, a beber uma meia de leite, a comer uma torrada e a ouvir a conversa das duas senhoras sentadas ao balcão:

- Atão não foi o Udi Álen que adoptou uma chinesa e depois casou com ela?

- Ah pois!

- Olha, eu é que não me importava de o adoptar a ele!

- ah ah!

- E mandava o meu homem apanhar ar, que támém tá a precisar!

Intervenção do senhor sentado a ler o jornal:

- Oh Dona Miquelina, atão o que está para aí a dizer que vai fazer ao seu marido?

- Atão, só disse que bou adoptar o Udi Alen!



(No final deste filme, aposto que o marido da Dona Miquelina fica com a filha adoptiva chinesa com quem o "Udi Alen" casou!)

05 março 2007

Não Consigo Respirar


04 março 2007

Crónica O meu Sistema Respiratório (2)

Ter uns pulmões que funcionam mal põe o meu cérebro em funcionamento.

Passar uma tarde na cama a descansar o meu sistema respiratório, fez-me pensar: Porque será que fantasio tanto sobre os possíveis cenários do futuro da minha vida?

Como não tenho resposta, fui por fim às minhas fantasias com as fantasias dos outros, na sessão das 17h15- Paprika - do último dia do Fantasporto.

Mais Fantasporto

O ano passado consegui bilhetes para a sessão de abertura do Festival de Cinema de Edimburgo e para a festa oficial do festival. Gosto muito destes eventos porque o celebrity spotting é o meu passatempo preferido (estiveram lá a Emily Watson e o Gabriel Byrne. Mais não me lembro). O dia seguinte foi duro e pela primeira (e única) vez na vida tive que telefonar para o trabalho a avisar que me ia atrasar porque a ressaca era violenta demais para conseguir sair da cama. Ir a festas com bebidas a circular livremente, num dia de semana, é má ideia. Mas como foi a minha chefe a dar-me os bilhetes, considerei que a culpa era dela!

Este ano não consegui bilhetes para a abertura do Fantasporto, mas consegui para o encerramento. Consegui um bilhete rejeitado por alguém cinco minutos antes da sessão começar. Estava lá o Ruy de Carvalho, a Rosana Arquette, o miúdo do ET que já não é miúdo nenhum, e muitos estrangeiros a aceitar prémios com discursos em português macarrónico. Incluindo um grego que pediu desculpa pela Grécia ter ganho o Euro 2004. E claro o Mário Dorminsky a cascar no presidente da câmara do Porto, no ICAM e a queixar-se da falta de apoio ao evento cultural do Porto com maior visibilidade no estrangeiro. Gostei. Foi mais divertido do que o filme que mostraram depois – The Fountain. Aborreci-me e talvez não tenha ajudado estar muito desconfortável na segunda fila. Ainda me dói o pescoço.
O cartaz do Isabella é só porque gostei muito do filme.

02 março 2007

Hoje Apetecia-me Estar Aqui (3)

Estação de Comboios de Nova Deli, Paharganj, India

Enfermaria de Mulheres Perturbadas Num Hospital Psiquiátrico

Sala delle agitate a S. Bonifacio- 1985, Telemaco Signorini
Gostava de conseguir escrever sobre sentimentos em vez de contar histórias. Mas não sei escrever sobre o que sinto. Não percebo nada sobre o que as pessoas sentem e confesso ter inveja das pessoas que me parecem tão emocionalmente seguras.

Hoje telefonou-me um amigo com quem não falava (de coisas a sério) há imenso tempo. Esteve a tentar animar-me. Ou se não era essa a intenção, foi isso que acabou por fazer. Considero-o uma pessoa muito sábia. Porque sabe sempre o que dizer, o que sentir e qual a decisão mais correcta. E diz sempre tudo com muita segurança.

Não gostava de ser como ele, porque deixava de ser eu. Mas gostava de ter alguém assim ao meu lado. Porque a estabilidade emocional é contagiosa.

Por isso já sabem. Se houver alguém por aí que seja sossegadinho, emocionalmente estável e calminho, fico à espera de um convite para um café ou para jantar. Ah!! É importante também que tenha muita paciência. Porque de outra forma, não me consegue aturar.

01 março 2007

Hoje Apetecia-me Estar Aqui (2)

Oceanário, Lisboa

Celebrity Spotting

Quando era adolescente, tinha muito pouco dinheiro para férias e queria ir a todos os festivais de música de verão. Para resolver o problema, eu e a minha irmã pusemo-nos a pintar T-shirts e vendê-las no festival de Paredes de Coura. Ganhávamos uns trocos para depois ir gastar ao festival do Sudoeste.

Num desses verões, a organização do festival de Paredes de Coura deu-nos uma barraquinha dentro do recinto dos concertos para vendermos as nossas obras de arte e tivemos também direito a passes que davam acesso à área de concertos o dia todo.

Quando estávamos a expor o nosso trabalho, estava o recinto ainda fechado ao público, vejo passar o Adolfo Luxúria Canibal. Amigos, se há um personagem do mundo da música que admiro, é o Adolfo Luxúria Canibal!!! E toca de ir a correr atrás dele para pedir autógrafo. “Sr. Adolfo, Sr. Adolfo!! Gostava de lhe oferecer uma das minhas T-shirts! Estou ali naquela barraquinha!!” E ele, com aquela voz super cool: “Eu passo lá daqui a bocado”.

E daqui a bocado, lá estava ele. Como foi na fase em que ele estava gordo como um texugo, não havia nenhuma T-shirt que lhe servisse. Eu sugeri que ele escolhesse uma que gostasse e quando eu chegasse a casa, fazia uma parecida no tamanho dele e enviava-a para casa dele. “Tens uma caneta?” – pergunta ele (sempre muito cool!!) – “aponta aí a minha morada”.

E foi assim que eu enviei, num envelope almofadado, uma T-shirt em tons de castanho, para a casa do Adolfo Luxúria Canibal.