Foi bom descobrir que uma licença de maternidade pode ser um período de introspecção profunda. Apesar das noites sem dormir me deixarem cansada ao ponto de sentir o meu cérebro parar de funcionar no seu modo normal, de ter todos os minutos ocupados e de nem conseguir perceber para onde foi o tempo de cada dia, as horas que passo sentada no sofá, na cama ou na poltrona do quarto a olhar para a minha bebé a mamar permitem-me ter imenso tempo para pensar.
Organizar-me para ter tempo para pensar foi algo me esqueci nos últimos meses, se calhar até nos últimos anos. Perdi-me no meio da confusão que criei nos meus dias, demasiado concentrada no que precisava para sobreviver. A ansiedade em que vivia constantemente deixou-me sem tempo para pensar.
Não ter tempo para pensar pode ser bom mas também pode ser mau. Evitei pensar demais no que me incomodava mas também não tive oportunidade de organizar os ficheiros internos. Sempre imaginei o meu cérebro como gavetas de um arquivo, com pastas onde se organiza o que precisamos de encontrar mais tarde.
E foi isso mesmo que me aconteceu nas últimas semanas que passei em casa a garantir que a minha filha crescia saudável e feliz. Tive tempo de organizar os ficheiros e também de encontrar informação antiga.
Lembrei-me do que gostava de ler, de comer, e mais importante, lembrei-me deste blog que estava aqui ao abandono.
Mesmo sabendo que vai ser uma escrita interrompida por colinhos, banhos de leite meio-digerido e fraldas mal cheirosas, vou tentar encontrar nos ficheiros do meu arquivo a vontade que tinha de escrever. Tenho aqui um outro ficheiro guardado que apesar de meio apagado, me faz recordar que escrever me fazia bem.
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