19 dezembro 2014
Blogs de Gajas
Porque é difícil manter um blog - dissertação.
É muito difícil manter um blog de gaja. Não gosto de fazer compras, não me interesso por moda, não uso maquilhagem, a minha casa ainda parece um apartamento de estudantes, não sigo nenhuma série na TV, não tenho uma cantora preferida, não sou fada do lar, não gosto de vestir a minha filha com lacinhos. Não sigo nenhuma filosofia de vida, não tenho religião, interesso-me por política apenas o suficiente para ter uma opinião quando vou votar. Só gosto de animais domésticos na casa dos outros, não colecciono nada, não gosto particularmente de frases feitas, não gosto de livros de auto-ajuda.
Dou erros ortográficos, escrevo sobre assuntos que me interessam apenas a mim e que não tocam ao coração da maioria. Faço receitas culinárias saudáveis mas o que a malta quer é açúcar e colesterol. Não tenho uma cultura geral que impressione. Gosto muito de ver o Quem Quer Ser Milionário mas morria de medo de participar. Não fosse falhar numa pergunta básica que implicasse saber que foi o Cantiflas. Não suportaria a humilhação.
Detesto cor-de-rosa, abomino clichés sobre o que é ser mulher ou como é trabalhar com mulheres ou sobre como se comportam as mulheres ao volante. Não tenho jeito para me pentear. Irrita-me a secção de revistas dos aeroportos que resolveram designar por Women´s Lifestyle. Aproximo-me das prateleiras e chego mesmo a ter que olhar para dentro da blusa para me assegurar que as minhas mamas estão lá. Não há lá nada que me apeteça comprar. Serei um homem? Isso também não porque a GQ não me diz grande coisa.
Não sei dizer coisas bonitas. Sofro com a dor dos outros mas prefiro guardar cá para dentro a empatia que sinto. Não tenho frases feitas prontas para todas as ocasiões. Tenho imenso jeito para ser politicamente incorrecta. Claro que gosto de ir ao www.citador.pt mas não é ferramenta para construir o meu blog.
Perguntavam-me um dia porque é que nas telenovelas as personagens passavam por situações tão extremas e ninguém tinha vidas pacatas, não iam e vinham do trabalho semana após semana, faziam o jantar todos os finais de tarde e lavavam máquinas de roupa ao fim-se-semana. Mas quem se interessa por uma vida normal? Essa já nós a temos e não queremos ver ou ler sobre a rotina da vida de alguém normal. Quem quer ler um blog sobre uma vida normal?
Gosto de estar sozinha, falo com pouca gente, não gosto da maioria, e dos que gosto, gosto muito e com todo o coração. Nunca lhes disse, não sei como se faz. Não poderia nunca ser life coach. Não sei sequer o que fazer da minha e só gosto de falarp ara plateias quando domino o assunto. E sobre a vida não sei nada. Nem da minha nem das dos outros.
Gosto da ausência, dos prazeres da solidão. De estar no sofá sem ter que falar com ninguém. Gosto tanto do meu sofá. Não tenho certeza de nada mas tenho opinião sobre tudo. Acredito que o melhor que posso fazer é guardá-la para mim. Ninguém quer saber da opinião dos outros, a não ser que seja a de quem nos paga o salário. Porque as contas vão estar sempre por pagar. E é esta a única certeza que temos neste momento.
Entretanto vou escrevendo. Palavras ao vento. Dizem que somos feitos desta forma, os introvertidos. O que guardam para dentro metem assim para fora. E vou amando os que me agradam, os amigos os colegas. E acima de tudo o meu companheiro que me mantém quentinha e a minha filha que me treina no faz de conta. Faz de conta que bebe chá, faz de conta que põe o bebé a dormir. Eu faço de conta que sou feliz quando estou a fazer de conta sem ela.
Posso viver sem um blog mas por favor que nunca me faltem livros de outros para aprender e palavras minhas para escrever. Mesmo que seja irrelevante que haja alguém para as ler.
Que não me faltem sonhos que venham de filmes com mulheres com o poder nos surpreender.
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1 comentário:
Maravilhoso! Continua para que não me falte a leitura.
Beijo,
IKA
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