24 março 2010

Natureza Claudipédia


Optei por ser mais flores e tons pastel. Pode ser inconstância ou apenas gosto pela renovação. Como os clientes de uma certa loja de móveis, que renovam a casa a cada estação. Agora já nada fica igual por muito tempo. Na minha casa, a sala foi decorada com cores escuras pois é onde estou de noite a jantar com amigos. As cores escuras ligam mais as pessoas, incentivam a discussão de temas que animam um serão. Como se se tratasse de um pub inglês ou um bruin café holandês. Serve também de espaço de lazer quando estou só e preciso de me sentir num lugar que me aconchega. Sempre consegui pensar melhor em locais sombrios. Em Coimbra, estudava num quarto quase às escuras, iluminava os livros apenas com uma lâmpada de secretária. Como se a escuridão do quarto e a luz reservada apenas à circunferência que o candeeiro de estudo criava sobre o tampo da mesa, me obrigassem a concentrar no que era importante, sem as distrações dos outros elementos daquela divisão.

O quarto da minha casa foi pensado para ser o oposto. Com luz, cores claras, tecidos bege e brancos. É onde durmo e traz-me assim sonhos bonitos. Acordo de manhã envolvida pelas pétalas de uma flor amarela do campo. A esperança de começar o dia de bem com a vida.

Não tenham ilusões. Continuo a ser a Cláudipédia a preto e cinzento. Pois se há quem veja sempre céu limpo e sol radiante mesmo com o temporal que assola o mundo, eu continuo a ver as núvens a passar.

Bricolage



Objectivo: Colocar na parede do meu quarto as duas gravuras da Angie Lewin que comprei num museu em Londres.

Passo 1: cortar as gravuras para caberem nas molduras que comprei na IKEA. Se as gravuras me custaram duas libras e meia cada, não vou ter despesas superiores a esse valor para mandar fazer uma moldura à medida. Com uma tesoura bem afiada o passo 1 é completado com sucesso.

Passo 2: fazer dois furos na parede de forma a que as molduras fiquem alinhadas. Decidir a que altura coloco as molduras: 60 cm a partir do tecto. Fazer a marca a lápis onde vou pregar o prego. A primeira marca fica demasiado para a esquerda. Faço outra marca mais para a direita. Martelo o prego que encontro na garagem. O prego entorta. Lembro-me que este prego tinha vindo com a cómoda que foi montada quando me mudei para esta casa e portanto era apropriado apenas para madeira. Escolho outro prego. Apercebo-me que martelei na marca a lápis errada. Fico com vontade de bater com a cabeça na esquina da mesinha de cabeceira. Desta vez na marca certa, volto a martelar apenas para me aperceber que o prego era demasiado grosso e comprido. Vou de novo à garagem, olho para a caixa das ferramentas. Descubro "pregos fáceis". Deslizam como manteiga. Penduro o primeiro quadro. Faço outra marca a lápis. Martelo o segundo prego fácil. Coloco a moldura número dois. Fica demasiado alta em relação à outra, mesmo tendo usado a fita métrica. Retiro o prego e coloco outro mais baixo. Coloco os dois quadros em cima de cada um do seu prego fácil. Sento-me na cama irritada com o buraco que ficou no meio dos dois quadros. Em vez das gravuras só consigo ver o dano que causei à parede. Começa a sair-me fumo negro pelas orelhas. Amuo. Acende-se um fusível e lembro a lata de tinta amarela que ficou guardada na garagem após a casa ter sido pintada.

Passo 3: Cobrir o buraco causado pelo primeiro prego. Com uma colher de sobremesa, retiro da lata uma noz de tinta amarela que coloco num pedaço de cartão. Tapo o buraco com a tinta espessa que, mais parecendo uma massa, disfarça o buraco e devolve a cor à parede no meio dos quadros. Sinto-me feliz. Vou poder acordar a olhar para flores mesmo não tendo habilidade para a bricolage.

22 março 2010

Austeridade




18 março 2010

Opa Vellekoop

Esta moldura está no quarto da minha tia. É o avô da minha mãe - e da minha tia, claro - o Opa Vellekoop. É uma foto de quando era um homem novo. Mas a minha tia não o conheceu assim e a minha mãe não se lembra dele porque ele morreu nos primeiros meses de 1945, antes do fim da segunda guerra mundial, de pneumonia. Mas ele conheceu bem a minha mãe porque viveu na casa da familia delas, no piso de cima. Ele e a sua segunda mulher - que a minha tia chamava "tia Annie". A primeira, a avô da minha mãe e tia, morreu no fim de 1929 ou início de 1930, no primeiro ano do casamento dos pais delas.

A minha tia também tem uma foto da avó, tirada na mesma altura desta foto. Sempre entendeu que não era uma mulher muito simpática - os pais delas não falavam muito sobre ela. Mas as crianças têm as suas antenas, e a minha tia não tem certeza de como ela realmente era. E porque não pode ficar esquecida, colocou a foto dela ao lado da foto do Opa Vellekoop. Não tem o direito de os separar.

O Opa Vellekoop era um homem muito amável. Muito simpático para os netos. A minha tia conta que gostava de ir para os quartos de cima, sentar-se no colo dele e ficar a ver o que fazia: cozinhar - lembra-se de o ver fazer bolachas, preparar mexilhões. Cozinhava de tudo, coisas que a minha tia não sabe o nome em inglês. A minha tia também gostava de o ver a tocar violino. Até ao dia de hoje ainda guarda a mesa que ele lhe ofereceu no seu segundo aniversário. Nos últimos anos, tem a TV em cima dessa mesa.


With many thanks to my aunt Anneke. I really love your stories.

17 março 2010

Léon Tolstoi
Russia [1828-1910]



"As famílias felizes são todas iguais. As famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira."

15 março 2010

12 março 2010

Marcas do catolicismo no Português

Contam-se pelos dedos da mão os casamentos que assisti numa igreja. Não tenho muito conhecimento do que poderá ser um sermão típico de um padre. Mas espero que não sejam todos como o último para que me convidaram. Começou-se a falar de divórcio. Não da união de duas pessoas que se amavam e queriam constituir família, ser felizes e pensar num futuro juntos com o consetimento do deus em que acreditavam. O padre decidiu iniciar a cerimónia a falar e dar a pensar nas tentações e perguiças que podem levar um casal a pensar no divórcio. Aquele padre optou por celebrar o casamento de um rapaz com um rapariga de vinte e três anos a lembrar tudo o que podia correr mal. Não os lembrou que aquele era um dia feliz mas alertou-os "tenham cuidado que se não se esforçarem ainda se divorciam. E isso é que não pode ser que deus castiga e fica zangado com vocês. Não é o esforço para serem felizes que interessa aqui, é o esforço para não cairem em tentação e fazerem algo que vai contra a vontade de deus" Que inicio negativo para duas pessoas que tinham começado a pensar na felicidade juntos.
Uns meses depois liguei o radio e falava-se da educação sexual obrigatória nas escolas. A filha da locutora tinha tido a primeira aula de educação sexual e falou-se de ...tcharam!!!! SIDA! A primeira coisa que a turma daquela escola ouviu a professora falar sobre sexualidade foi...o que pode correr mal, o lado negativo. "Vamos assustar estas criancinhas e dar uma conotação negativa ao sexo porque é isso que vai ser bom para elas!" Medo, tenham muito medo!! O sexo é uma coisa terrível que causa doenças.
E é este o legado que o catolicismo deixou nos portuguêses. Somos negativos, deixamos o medo criar obstáculos. Não há abertura para falar do lado bom das coisas e depois alertar para os cuidados a ter na vida.
Vivemos com esta sombra medieval da opressão católica. Ainda temos medo de falar da felicidade, de tudo o que vai correr bem mesmo que alguma coisa pode correr mal, de ter abertura para falar de sexo, que não é mau nem sujo nem serve apenas para apanhar doenças.
Ainda se continua a reinar pelo medo quando ensinar a esperança nos podia levar bem mais longe.