27 maio 2007

Por agora, esta vida basta

Hoje apeteceu-me colorir o meu blog de tons rosa. O Claudipédia estará, nas próximas semanas, em modo “Romance Cor-de-Rosa”. Depois volta ao verde-escuro habitual.

As personagens dos romances cor-de-rosa são criaturas previsíveis e pouco interessantes. Têm nomes como Bianca ou Wendy, são umas galdérias e têm vidas sofridas. Mas ficamos sempre com inveja das aventuras em que repetidamente se envolvem. Deve haver algum motivo para a literatura cor-de-rosa ser o género literário mais procurado pelos portugueses. É porque no fundo no fundo (mesmo bem lá no fundo!!) todos queríamos ser uma Bianca.

É verdade que a literatura cor-de-rosa, se consumida por hábito, é capaz de embrutecer culturalmente qualquer pessoa. Como dizia Fernando Pessoa, a “Literatura, como toda a Arte, é uma confissão de que a vida não basta". Infelizmente ou felizmente, ainda não sei qual, ultimamente tem-me bastado a vida estupidificante que levo de romance cor-de-rosa. Essa literatura que não é arte e que pertence a quem não pede mais da vida do que alguma emoção. Mesmo faltando autenticidade e mesmo recebendo críticas literárias pouco dignificantes, a literatura fácil da minha vida, tem-me bastado.

É boa a sensação de ser personagem de um romance cor-de-rosa. O único senão é serem de leitura rápida, de pouca duração e de no final, conseguirmos tirar-lhes pouca coisa. Têm pouco sumo e deixam pouca substância.

É uma fase Rosa. De duração limitada.
Inspirado nesta entrevista.
O ano passado fui à Feira do Livro e não comprei nada. Estava desempregada e em fase de contenção de despesas. Este ano fui com vontade de comprar o que me apetecesse e tive dificuldades em escolher. O ano passado, como tinha o tempo todo do mundo, fui durante a semana e pude passear à vontade pelos stands dos editores. Este ano tive que ir ao Domingo e foi uma batalha para conseguir ver os livros. Gente a mais, uma multidão à porta para entrar.

É sempre assim, quando estamos desempregados temos o tempo todo do mundo e não temos dinheiro. Quando estamos a trabalhar, não temos tempo para gastar o dinheiro.

Acabei por comprar A Casa Verde do Mário Vargas Llosa. E aconselhei a minha mãe a comprar um livro do Peter Singer, que eu também quero ler. E ainda fiquei com mais dois ou três debaixo de olho. Se tiver tempo de lá voltar, trago mais alguns comigo para casa.

26 maio 2007

Trânsito

Nunca percebi os condutores nervosinhos. Que não conseguem manter-se na mesma faixa, que são impacientes, que aceleram e desaceleram e que se colam ao carro da frente. Até ao dia em que comecei a fazer o percurso para o trabalho num trânsito insuportável. Meia dúzia de viagens foram o suficiente para passar de condutora descontraída a frenética ao volante. De manhã tento manter a calma, ouço o Nuno Markl na Antena 3 e tento não me irritar com as filas de trânsito. Na viagem de regresso, irrito-me mais e transformo-me num daqueles condutores que nunca tinha compreendido. Cheia de pressa para chegar a casa, não entendo porque demoro uma hora para fazer 35 quilómetros. É um desperdício de tempo. Todos os dias entro no carro preparada para me irritar. Transformei-me num deles.

23 maio 2007

As Noites do André

No quarto do André entro cansada e saio refeita. E de manhã, enquanto procuro as roupas espalhadas pelo chão, vou despertando como preparação para o mundo que fica do outro lado da porta.

- Obrigada mais uma vez.
- Já sabes que não me importo.
- Mas obrigo-te sempre a acordar tão cedo…
- Não vamos falar sobre isso outra vez. Sabes que não me importo…
- Até à próxima semana.
- Porta-te bem.
- Tu também.
- Já estou com saudades...


Fecho a porta do carro com um sorriso e vou a casa tomar o pequeno almoço antes de sair para mais um dia de trabalho.

São assim as noites do André. Contamos segredos, fazemos de conta que a vida não é o que é, comemos bolachas com geleia de morango. E no fim, ficamos à espera da próxima semana. Porque há um conforto nas coisas que se repetem. E os braços do André abrem-se para mim outra vez, na segunda-feira.

20 maio 2007

Pensamento do Dia

O crescimento da minha felicidade é directamente proporcional ao crescimento do meu traseiro.

(ontem cometi o erro de me pesar e descobri que desde que mudei de emprego engordei 3 quilos)

19 maio 2007

Sérgio Godinho no Teatro Maria Matos

Quarta-feira fui ao Maria Matos. Quando for grande quero ser como o Sérgio Godinho e saber muito sobre a vida.

Irmã mais nova

Fui a irmã mais nova durante tanto tempo que me esqueci que nesta idade já se perderam as regalias inerentes a esta condição.
Quando na segunda-feira o meu pai se aleijou no ombro, tive que chamar uma ambulância. Os bombeiros decidiram que tinham que o levar para o hospital de Gaia. A minha mãe foi com ele e disse que alguém tinha que ir atrás de carro para os trazer de volta.
Eu imediatamente fiz o mesmo que tinha feito a minha vida toda e telefonei à minha irmã mais velha. Porque foi sempre ela a resolver tudo. Ela atendeu e disse que tinha um exame na manhã seguinte, bem cedo "Mas se tiver que ser, eu vou..."
Era tarde, eu tenho carta de condução, 30 anos e nenhuma limitação física ou mental. Fiquei a a sentir-me mal por ter feito o telefonema.
Peguei no carro, pedi direcções a um vizinho para chegar ao hospital de Gaia, esperei na sala das urgências e ao fim da noite trouxe os meus pais de volta.
Complicado? Não. Porque é que eu pedi à minha irmã para ir lá ela? Porque foi o que sempre aconteceu no passado.
A Cláudia é a irmã mais pequena e não se sabe orientar. Ou sabe. Sei agora e sabia antes. Mas quem tem irmãs mais velhas apoia-se nelas para tudo.
É bom regressar depois de uns anos de ausência, e sentir que nos sentimos e que nos tratam como adultos.
Acho que para sempre me vou sentir "a irmã mais nova". Mas se não me engano, foi o Oscar Wilde que disse que depois dos 25, temos todos a mesma idade. A diferença de idades entre mim e as minhas irmãs, que tant ose fez sentir quando eramos pequenas, já não faz diferença agora.

11 maio 2007

Achei o TPCC do bagaço interessante. Ver no blog não compreendo as mulheres. O meu está aqui:

Se fosse uma hora do dia, seria bem cedo de manhã
Se fosse um astro, flamejava
Se fosse uma direcção, estaria sempre errada
Se fosse um móvel, teria sido comprada na Ikea
Se fosse um líquido, seria vinho tinto
Se fosse um pecado, seria um grande bolo de chocolate com natas e morangos e uma garrafa de Champagne
Se fosse uma pedra, seria da calçada
Se fosse uma árvore, seria uma aveleira
Se fosse uma fruta, estaria verde demais
Se fosse uma flor, estaria murcha
Se fosse um clima, seria fresquinha
Se fosse um instrumento musical, estaria desafinada
Se fosse um elemento, seria cloro
Se fosse uma cor, seria o preto
Se fosse um animal, seria um urubu
Se fosse um som, seria um lamento
Se fosse música, seria deprimente e melancólica
Se fosse estilo musical, seria uma ópera
Se fosse um sentimento, seria a insatisfação
Se fosse um livro, queria ter sido escrita pelo Paul Auster
Se fosse uma comida, seria bem apuradinha
Se fosse um lugar, seria o quintal dos meus pais
Se fosse um gosto, seria insípida
Se fosse um cheiro, seria a gel de banho
Se fosse uma palavra, seria mal pronunciada
Se fosse um verbo, seria mal conjugado
Se fosse um objecto, seria uma mulher bem mais feliz
Se fosse peça de roupa, seria a túnica do Demis Roussos
Se fosse parte do corpo, seria um traseiro cheio de celulite
Se fosse expressão facial, seria uma testa franzida de preocupação
Se fosse personagem de desenho animado, seria o Ruca (porque é tão bonzinho e querido!)
Se fosse filme, seria o Blue Velvet
Se fosse forma, seria bem torta
Se fosse número, seria de série
Se fosse estação, seria a de serviço da Mealhada (vai uma sandocha de leitão?)
Se fosse uma frase, seria "Estou cheia de fome."

09 maio 2007

Musica para quarta-feira à tarde



Quanto tinha 18 anos era super fã dos Green Day e tinha um bilhete para ver o concerto no Coliseu em Lisboa. Quando o concerto foi cancelado, fiquei muito desiludida e triste. 10 anos mais tarde, em Edimburgo, ofereceram-me um bilhete para os ver ao vivo no T in the Park (festival na Escócia). Foi como ter 18 anos outra vez. Apesar de tocarem músicas para adolescentes, gosto muito deles. Um concerto memorável.

Adeus Vida Cruel

Depois de um longo perídodo de reflexão (cerca de 5 segundos), resolvi desistir de escrever crónicas no claudipédia. Estou a chatear-me com demasiadas pessoas para valer a pena continuar. Para além disso, trabalho tanto que sobra pouco tempo para escrever sobre temas que realmente interessem.

E já agora, acho que não me lembro da última vez que me senti tão feliz. E o pior de tudo é que estou cheia de medo de durar pouco e da queda ser grande (porque a subida também o foi).

Talvez actualize o blog de vez em quando mas como temas vou evitar escrever sobre a minha vida. Segue-se perídodo de reflexão.

07 maio 2007



Se correr tudo bem para a próxima semana vou ver o Sérgio Godinho ao Maria Matos :)

Aviso

A pedido do meu leitor preferido, o shinystat foi retirado. Já não posso ver quem lê o meu blog.

Quanto mais me bates mais eu gosto de ti

Quando acordei esta manhã numa pensão da baixa de Coimbra, sem me lembrar da noite anterior, pensei "Só posso ter sido atropelada". Levantei-me e olhei no espelho: "Ena, e foi por um camião!!". Quase a engolir a língua de tão seca que tinha a boca, peguei no telemóvel para ver as mensagens que tinha enviado. "Bolas!! Já não tenho coragem para pedir desculpa a este tipo pelas mensagens que lhe envio em noites de estupidificação."
Devia-me ter encontrado com um amigo que não vejo há quase dois anos, mas com a cara naquele estado, sem champô na mala, e a sentir-me a mulher mais gorda e feia do universo, regressei a Lisboa sem o ver.

Segue-se uma quinzena de desintoxicação. Ao corpo e ao telemóvel. É urgente ver-me livre de alguns números e de alguns quilos.
(esta crónica devia ter ido para o ar ontem, mas o cyber café que frequento tinha os computadores todos avariados e não deu)

05 maio 2007

The Book of Human Folly

Estou a ler mais um livro do Paul Auster: The Brooklyn Follies. Nathan Glass, a personagem principal, precisava de um projecto para quebrar a rotina soporífera da vida que levava. Mesmo sabendo que era um projecto humilde, decidiu-lhe dar um nome grandioso: The Book of Human Folly.

Fez-me lembrar uma versão Paul Auster do Claudipédia:

"I called it the Book of Human Folly, and in it I was planning to set down in the simplest, clearest language possible an account of every blunder, every pratfall, every embarassement, every idiocy, every foible, and every innane act I had commited during my long and checkered career as a man. When I couldn´t think of stories to tell about myself, I would write down things that have happened to people I knew, and when that source ran dry as well, I would take on historical events, recording the follies of my fellows human beings down through the ages, beginning with the vanished civilizations of the ancient world and pushing on to the first months of the twenty-first century. If nothing else, I thought it might be good for a few laughs. I had no desire to bare my soul or indulge in gloomy introspections. The tone would be light and farcical throughout, and my only purpose was to keep myself entertained while using up as many hours of the day as I could."

Muitas Coisas

Coisas que chateiam
Ir na rua a comer pão, sentir que vamos espirrar, não ter tempo para tirar um lenço da carteira e …atchimm. Ficar cheia de migalhas mastigadas na palma da mão.

Coisas que não valem a pena
Fazer compras nos saldos da H&M.

Coisas que me deixam triste
Não ter internet quando estou em Lisboa.

Coisas de mau gosto
Homens que nos dão palmadas no traseiro a achar que nos estão a fazer um elogio.

Coisas que relaxam
Depois de dez horas de entrevistas, jantar na ribeira de Gaia, com vista para o Porto e conversar até duas e meia da manhã.

Coisas que deprimem
Não poder dar trabalho a toda a gente.

Coisas que divertem
Jantar num restaurante onde as mesas para dois estão muito juntinhas, e sentir que o casal do lado, porque não tem nada para dizer um ao outro, substitui a falta de assunto com escutas às conversas do casal apaixonado da mesa ao lado.

03 maio 2007

Parar no tempo




Ângulo recto

Quando tinha 18 anos e fui estudar para Coimbra, conheci um rapaz que estava no último ano na minha faculdade e que me ia buscar a casa muitas vezes para sair. Quando me ia levar de volta insistia muito para entrar, mas eu não deixava.

Fui falar com a minha irmã e contei-lhe que não sabia se lhe devia permitir a entrada. E porque as irmãs mais velhas sabem tudo (as minhas, pelo menos) recebi um conselho que não esqueci nunca mais. “Cláudia” disse-me ela num tom muito sóbrio e incomodada pelo tema da conversa, mas sabendo que não devia ignorar os dilemas da irmã mais nova, “esse são o tipo de coisas que se fazem com pessoas de quem gostamos muito. Pessoas especiais”.

Nunca cheguei a deixá-lo entrar. E por nunca ter passado da sala, deixou de me ir buscar para sair.

Confesso que desde então, nem sempre tive em conta o conselho da minha irmã e isso só me fez aperceber quão sábias eram as palavras dela.

Mas o tempo passa e a solidão, às vezes fala mais alto que a razão. Aos 20 encontramos amor em todas as esquinas e temos apenas que descobrir se as pessoas são especiais. Aos 30 os edifícios parecem todos redondos.

Às vezes preferia não perceber nada de geometria para não saber a diferença entre o real e o amor a fazer de conta.