28 abril 2007

Crónica A Porteira

Quando estou em Lisboa, fico alojada num apartamento antigo, como já não se constroem mais. Sete assoalhadas, uma marquise e cozinha enormes, cheio de sol. Chão em madeira e quarto dos fundos que serviria para uma empregada residente. Se nos esquecemos de fechar as portas de correr, os vizinhos não podem chamar o elevador que tem toda a estrutura e cabos à vista.
Este prédio tem mais uma característica muito típica dos prédios antigos de Lisboa: uma Porteira que ocupa o apartamento do rés-do-chão.
Desconheço por completo a necessidade de uma Porteira num prédio como este, e é uma função um pouco salazarista. A senhora senta-se numa cadeira à entrada, a controlar quem entra e quem sai. Já me viu várias vezes a entrar e sair do prédio mas mesmo assim não é capaz de me reconhecer. A idade não perdoa e as capacidades espiatórias já não são o que eram.
Esta manhã saí cedo e cumprimentei-a. Regressei pouco tempo depois e quando procurava as chaves na carteira para abrir a pesada porta de ferro e vidro, a Porteira deixa-me entrar. Estava nas escadas a bisbilhotar.
- Obrigada.
E sigo a subir as escadas.
- Desculpe, a menina vai para onde?
- Vou para o 1º esquerdo...
- Entra assim sem dizer nada e eu não a conheço. Preciso saber para onde vai.
- Então...mas, ainda agora a cumprimentei, quando ia a sair.
- ah pronto! Não me recordo...
Eu também não me recordo de ter que dar justificações quando entro com a minha chave no meu prédio. Também não me recordo do tempo em que o quarto dos fundos era ocupado pela empregada residente que vinha da provincia. Nem de prédios com porteira.
Parece-me algo que faz falta na América do Sul ou em Nova Iorque. Faz-me lembrar as histórias do tempo do Salazar, quando se trabalhava em troca de tecto e comida.
Não gosto da Porteira. E acho que ela também não gosta de mim.

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