01 fevereiro 2007

Quando podemos fazer mais

Fico sempre bem impressionada com as pessoas que fazem mais do que aquilo que é esperado.
Numa aula de Introdução à Economia, virado de costas para o anfiteatro, o professor escrevia gatafunhos no quadro. Fórmulas que comprovavam uma teoria qualquer. Subitamente fez uma pausa, virou-se para trás e perguntou: Conhecem o Jacques Tati? Já alguém viu um filme dele? E fez uma pausa para nos descrever os filmes que gostava de ver. E retomou a lição de economia.
Eu nunca tinha ouvido falar do Jacques Tati e por coincidência, umas semanas depois vi um cartaz na associação de estudantes a anunciar a projecção de Jour de Fête. Fui ver o filme e adorei. Nunca teria reparado no cartaz, se não fosse a pausa do professor para partilhar o que sabe, para além da teoria económica.
Ontem fui a uma consulta de planeamento familiar. Não sei bem porque razão, faço parte do grupo de risco de mulheres que têm que ir a estas consultas regularmente.
Depois do exame médico, salto da marquesa e enquanto me visto, a médica, do outro lado do biombo pergunta-me: “Quais são os seus planos para o futuro?”
- O que é que quer dizer? Planos de futuro para quê? A nível profissional ou pessoal?
- Os dois! O que quer fazer a nível profissional? E quer ter família e filhos?
- Bem, para ter filhos tenho que ter alguém com quem os ter…
- Sim, dá jeito. Para si e para a criança.
- Eu não sei se quero ter filhos. Aliás já pensei nisso e acho que não quero. Mas tenho medo de me arrepender, daqui a 10 anos.
- Mas diga-me. Eu sei que é uma aventureira. Essas suas viagens são por opção ou está a fugir de alguma coisa. Não quer ter filhos, ou não os tem porque não tem essa opção? É que se está sempre a mudar de residência, torna-se difícil ter uma família.

E falamos sobre as angústias de quem tem medo de ter feito uma opção que implica assumir um papel que não é normalmente atribuído a uma mulher. Uma opção que eu tinha medo de não ser reversível.
- Pode ter filhos até ao 40. Isso quer dizer que ainda tem 10 anos para decidir. E mesmo que não tenha, pode adoptar. Não se gosta mais ou menos de um filho por ser ou não biológico.
Saí de lá com a alma mais tranquila. Porque não tenho muitas oportunidades de falar sobre isto com alguém que tem ouvidos disponíveis para ouvir.

Eu gosto muito de ver filmes antigos. E não sou só eu a gostar de sentir empatia do outro lado de lá. Queria um dia agradecer ao meu professor para que soubesse que pode fazer mais do que ensinar economia. E gostava de agradecer à minha médica para que soubesse que pode fazer mais do que me curar de uma doença física.
Foto de Jacques Tati por Robert Doisneau

4 comentários:

Anónimo disse...

Acho que devia ir à tua médica porque a minha disse-me "32 anos, humm, já não tem muito tempo para decidir!"

Anónimo disse...

Que falta fazem estas pessoas com interesses e interessantes. Há poucas, não é?
Maninhas, vocês são os meus ídolos!
Eva
www.falaremterapeutica.blogspot.com

Xana disse...

ainda esta semana passei por uma situação, que me fez ter a certeza que é necessário que os profissionais (no meu caso médicos) tenham o chamado lado humano, não é só importante curar as pessoas fisicamente mas sim tb psicologicamente.
tb me faz lembrar o sitio onde trabalho (ou onde costumava trabalhar)não é so o dinheiro que é importante, as palmadinhas nas costas tb fazem mta falta p nos sentirmos bem
pode não ter nada a ver, mas olha foi o que me lembrou
parabens pelo blog!

colher de chá disse...

tens toda a razão... nem mais! gostei do texto, da lembrança.