13 fevereiro 2007

Crónica A Minha Avó


A minha bisavó era "guardadora de cancelas". Numa casa de dois compartimentos, à beira da linha de comboio, vivia uma família de sete.

A minha avó nasceu em 1908 no dia do Espírito Santo, na aldeia de Cebolais-de-Cima, distrito de Castelo Branco. Deram-lhe o nome de Maria do Espírito Santo, sem o nome da família da mãe e sem o nome da família do pai.

No primeiro dia de escola, a minha avó regressou a casa e pediu à mãe para não voltar mais. Os outros meninos gozavam com as saias rodadas de menina de aldeia. A minha bisavó disse-lhe então que ela não precisava de ir à escola no dia seguinte nem nunca mais. Uma mulher não precisa de ir à escola nem de aprender a escrever. Tem é que aprender a costurar.

Depois da ceifeira passar nos campos, a minha avó ia com um saco apanhar os grãos que ficavam no chão. Vendia-os na feira e juntava dinheiro para pagar uma máquina de costurar Singer. Custou 20 mil reis que a minha avó pagava a prestações mensais de 18 tostões.

Essa máquina foi restaurada a pedido da minha mãe e está agora na sala de jantar.

4 comentários:

Anónimo disse...

Eu lembro-me da avó me explicar que não tinha ido à escola porque as outras gozavam com ela por ser parola.
"Oh, vó! O que é ser parola?", ao que ela me respondeu que era quem usava saias rodadas. E foi o que eu fiquei a achar durante muito tempo.

Eva

Anónimo disse...

Acho tão bonito estas recordações de familia, adoro saber estas historias.
Da vossa avó não me lembro da cara dela mas lembro-me bem do forno da casa e as broinhas que ela fazia, do vosso avô recordo-me de estar a beira da porta de casa, sentado numa cadeira, no escuro, e vos dava uma moedinha a saida.
Uma coisa que não sabia é que voçes tinham raizes de Castelo Branco.....

Anónimo disse...

A avó ainda aprendeu a escrever o nome dela. Acho que ela chegou a fazer a primeira classe...

Eva

Xana disse...

tao bonito também, gosto de ouvir estas pequenas historias, embora não conheça pessoalmente as personagens