29 setembro 2008

Adolescência


Fiquei contente quando me disse o médico que estou a passar por uma nova adolescência. Porque detestei a anterior que custou tanto a suportar. Posso agora tê-la de volta mas com independência financeira. Mais uns quilos, celulite e ainda com algumas borbulhas. Mas posso fazer o que devia ter feito na altura. Experiementar sem culpa, sem ter de dar contas e mais importante, com consciência do que me pode fazer mesmo mal. Posso falar do que me vai na alma, falar com as amigas, com a mãe e as irmãs, posso finalmente comunicar. O que estava a faltar até agora. É uma aprendizagem lenta, mas que mostra resultados. Apesar de devagar, a partir de agora, acredito que só posso ir para cima. E um dia vou chegar a adulta. E mais vale tarde do que nunca.

23 setembro 2008

Cantinhos

Descobri um cantinho só para mim, nesta casa velha cheia de humidade, que me deixa isolada das ocupações de uma cidade. Sentada no parapeito largo da janela, com duas almofadas e os joelhos flectidos, olho a rua e os carros que de vez em quando passam. Encolhida e encarcerada entre a janela e a cortina, posso intoxicar-me com tudo o que quiser. Com os pensamentos mais meus que nunca. Tristes, alegres, revisões do dia que passou, planificações do tempo que vem a seguir. Alí naquele quadrado de espaço o ar frio da rua entra dentro de mim, vai trazendo o sono muito lentamente até que sinto que é hora de enfrentar a cama. Esse outro esconderijo onde às vezes passo tantas horas a dormir profundamente para não me lembrar e que ultimamente me rejeita, abandonada às insónias de quem não sabe bem o que anda a fazer. Espaços pequenos que me fazem pensar e às vezes até escolher aquilo que quero sonhar, mesmo assim acordada. Por vezes sonhos outras vezes pesadelos, mas são meus e vêm de um cantinho que sinto ser só meu. Onde sinto que sou só eu.

06 setembro 2008

O fardo da solidão


Estar sozinha pesa de forma diferente às mulheres sós que eu conheço. E a algumas não só não é peso como é uma forma mais fácil de viver. Reconheço que o peso da solidão se nota cada vez mais em mim- Porque somos todas diferentes e porque temos mais ou menos energia ou sonhos diferentes.
Em conversa com a minha irmã já surgiu mais que uma vez este tema, de procura de um companheiro. Dizia-me ela que é principalmente na busca de segurança que se baseiam as relações ou os casamentos. Eu digo que é mais que isso. Que é uma necessidade de partilha de tarefas. Mais do que uma rede financeira de apoio em caso de emergência, procuramos quem nos alivie o fardo das tarefas que nos traz a vida. Não ter que fazer ou decidir tudo sozinha. E reconheço que é exactamente nisto que se baseiam algumas decisões de ficar sozinha. Liberdade para as decisões, independência, poder usufruir do nosso tempo sem ter que o dividir com mais alguém. A mim, que tanto apregoo as vantagens de não ter que dividir o meu tempo nem reger o dia em função de ninguém, começa-me a pesar a responsabilidade de ter que fazer tudo sozinha. De ter que escolher o que jantar, que carro comprar, que filme ir ver, de não ter quem me compre os bilhetes de avião para ir de férias, que traga o mapa e conduza durante a viagem que há a fazer, que escolha as fotos a pendurar na parede, que me mostre um CD que não conheço sem ter que ser eu a procurar...Falta-me uma muleta, alguém que de vez em quando faça o que me compete a mim fazer, que me alivie a carga e as preocupações.
Que venha esse alguém, que eu egoistamente procuro para me aliviar mas também para uma relação altruísta em que se dividam as tarefas que nos foram dadas automaticamente assim que nascemos e que se tornam mais complexas conforme passa o tempo, e que não temos vontade ou energia de terminar.

31 agosto 2008

Abraços

Lembro-me de me contarem e de ver talvez nas notícias talvez no YouTube, um grupo de jovens (ou não assim tanto), que andava na rua a distribuir abraços. Abraços a vulso e sem escolher alguém em particular a quem gratuitamente os oferecer.

O único namorado que vale a pena mencionar dizia-me, muito furioso, que eu não sabia dar abraços. Ficava frustrado quando me pedia um, e eu, na minha melhor tentativa retribuia os carinhos que lhe saiam dos braços que me rodeavam, com um corpo muito rígido e braços tesos, sem conseguirem espalhar calor e miminhos, da forma como os abraços foram feitos para fazer. Oh! Assim não vale! Dizia ele irritado. "Não sei melhor" respondia-lhe. Mas só depois de muitas tentativas de abraços mal dados, se apercebeu que eu era um caso perdido. Procurou miminhos de outras formas.

Estou convencida que o único abraço que dei à minha melhor amiga foi no dia do casamento dela, igualmente teso e forçado, porque não é essa a forma que tenho para expressar o que sinto, apesar de saber que era o que pedia o momento.

Um dia da passada semana um colega no trabalho deu-me inesperadamente, depois de o ajudar com o computador, um abraço cheio de força. E eu encolhi-me toda de início, não me sentindo confortável com tanta proximidade física. Ainda por cima sem nenhum acontecimento que o justificasse. Senti que fui rude, mas não sei de facto melhor, o que afasta um pouco as pessoas por pensarem que não quero saber dos outros.
Carinhos e miminhos dão-se de várias formas. Eu não os tenho para dar nos braços, no peito nem nas pontas dos dedos e palmas das mãos. Ainda não sei bem como os passo aos que me são mais próximos mas como ainda tenho algumas pessoas pertinho de mim, alguma coisa devo estar a fazer bem.
Tenho sempre a esperança de um dia encontrar essas tais pessoas que distribuem abraços na rua. E de lhes dizer, bruta e com ar de desprezo, enquanto os empurro para trás, esticando os braços: "Oh amigo! Abraços?? Nem os dou à minha mãe!"

Feist - My Moon My Man

15 julho 2008

25 junho 2008

Walter Moers

17 junho 2008


10 junho 2008

Ausência

Ainda pensei escrever sobre o motivo da minha ausência, mas por ser óbvio e porque de “deprimências” já está este blog cheio, resolvi escrever sobre um dos meus temas preferidos.

No meio da solidão que sinto é inevitável que me ponha a pensar quem gostaria que me fizesse companhia. Quem poderia ser a pessoa que se desse bem comigo, que características devia ter, mais ou menos igual a mim, os valores, os hábitos e gostos.

E de repente convidam-me para sair. E a companhia não é nada daquilo que imaginei. Não acreditamos no mesmo, não temos o mesmo estilo de vida, não frequentamos os mesmos sítios, não temos as mesmas ambições, o mesmo background, o mesmo gosto, o mesmo carro. Não podemos viver em mundos mais distintos. E mesmo assim passo uma noite divertida, e tenho vontade de repetir.

Há pessoas que sei que nunca vão passar comigo mais que umas horas de alguns dias. Mas fazem-me sentir bem, fazem-me rir, sinto-me elogiada, e naquele momento breve, fiz falta a alguém, deram-me e dei prazer. E durante uns dias esqueci os requisitos que tinha colocado a quem era suposto fazer-me companhia. Uma quebra na rotina.

E depois as diferenças põem um fim a tudo. Não saímos mais, não recebo mais telefonemas nem convites para jantar. Sabia desde o início que ia ser assim mas mesmo assim não consigo deixar de me sentir triste. Queria fingir mais, não me sentir rejeitada mais uma vez. Porque me dou com muita facilidade e não sei lidar com o que vem depois. E depois de tantas vezes se passar o mesmo, continuo a não saber o que é melhor para mim. Envolver-me facilmente, sentir-me bem apenas brevemente e sofrer depois, ou não viver nada. Com medo do vazio que vem a seguir. Arrependemo-nos mais facilmente daquilo que não fizemos ou é melhor evitar as situações que sabemos que não conseguimos lidar? Não sei. Mas para a próxima, com tanta fragilidade, desconfio que me vou dar com a mesma facilidade de sempre.

Ausência Goran Bregovic e Cesária Évora

28 maio 2008

High Spirits

"If wine were to disappear from human production, I believe that in the health and intellect of the planet there would be left a void, an absence, a defect much more dreadful than all the excesses and the deviant behaviour for which wine is held responsible. Isn't it reasonable to think that men who never drink wine, whether out of naivety or principle, are imbeciles or hypocrites? A man who drinks only water has a secret to hide from his fellow men."

Charles Baudelaire

Citação roubada deste artigo do Guardian

26 maio 2008

Inércia

Às vezes acho que estar assim é como estar com uma crise de egocentrismo. Como é que a felicidade dos outros me vai afectar a mim? Como é que os problemas deles são meus também? Custa menos tomar decisões que possam afectar negativamente os outros pois estamos a pensar mais em nós. As nossas dores de cabeça, as nossas preocupações e de certa forma ficamos insensíveis às dos outros.

Como se a pouca energia que me resta fosse toda canalizada para sentir pena de mim própria e para os outros não sobra nada. E depois vem o sentimento de culpa que acumula com a inépcia para lidar com a vida que construí. Fico em estado de torpor físico e moral. Dormência apática. Não me apetece fazer nada. Só tenho vontade de sentir pena de mim.

23 maio 2008

Afundada na minha cama

Às vezes corre tudo como sempre, os dias são todos iguais, vou levando a vida de sempre. E a certa altura alguma coisa acontece que muda tudo. Sinto-me incrivelmente sozinha, perco o interesse no que gostava de fazer. Afundo-me na cama. Aí é tudo como eu quero. Basta fechar os olhos e posso escolher o que vai acontecer, com quem vou estar, como vai correr o dia no trabalho, o que vou fazer para jantar. E começa-se por fazer isto naqueles 15 minutos antes de ter que levantar.
Mas depois o que podia ser sonhar passa a ser evitar viver uma vida que não me agrada. E os 15 minutos passam a 15 horas. No calor e trasnpiração da minha cama é tudo como eu quero e sou eu que mando no meu destino. Sem ter que me esforçar, sem ter me mexer para fazer alguma coisa. Uma opção fácil de vida. Não ter que conviver, nem ter que tirar o pijama. Não interessa se faz sol ou se faz chuva lá fora. Fico à espera que a fome me vença. Levanto-me e como qualquer coisa, tomo banho, abro a porta da rua e vou finalmente fazer o que é mesmo preciso.

20 maio 2008

Gente complicada

Via sms:

Eu - Não me queres convidar para fazer alguma coisa?

Ele – Só agora é que acabei de jantar e tenho um café combinado...Para além disso ando stressado com umas cenas que tenho que terminar do trabalho. Quando terminar acho que tenho que beber uns copos. Mas antes disso gostava de tomar um cafézinho contigo.

Descodificador Claudipédia de sms – Não quero convidar-te para fazer o que quer que seja.
Bolas, não era mais fácil responder sim ou não? E depois as gajas é que são complicadas.

17 maio 2008

Herdade das Pias 2006, vinho regional alentejano

Lembro-me de sempre ser assim. E de em certas alturas me incomodar mais que outras. De algumas alturas em que até me fazia sentir bem, apesar de a maioria me deixarem triste. Gosto de saber que nem tudo em mim é mau. Apenas permanece por explorar. Como se fosse um jardim com os portões fechados. Onde ninguém ainda conseguiu entrar. Onde os muros são altos e ninguém consegue ver para dentro. E assim sendo, ninguém tem sequer vontade de entrar e de ver o que se esconde por trás da fachada.
É uma desculpa para a falta de interesse que pareço motivar nos outros. Caracterizar-me como um jardim escondido. Falta de modéstia também. Que importa.
Já me apercebi que a vida corre em ciclos. Como que se as situações se repetissem, com a única diferença de já as conhecermos quando nos acontecem pela segunda ou terceira vez. Encaramos com mais força, com mais desinteresse e damos menos importância às adversidades. Também as alegrias me vêm como repetições. É tudo igual e passageiro. Sempre o mesmo mas com pessoas diferentes e lugares diferentes. E é a isto que se resume a vida. Uma colecção de desilusões, onde a única coisa que não muda é o pano de fundo, somo nós, que estamos sempre aqui. Sempre iguais. Por maiores que sejam as mudanças.

Conversas Messenger

Cláudia diz: tou a procura de inspiração para escrever, mas só me sai pirosices. Queria q fosse verão para ir pa praia.
S diz: ohh
Cláudia diz: e tu o q querias?
S diz: sei la
Cláudia diz: uns copos de vinho dão me sempre para filosofar. Eu queria gostar mais de mim. Vou pedir ao pai natal.
S diz: Só não gostas porque és parva
Cláudia diz: Então gostava de nao ser parva.
S diz: pede issoao pai natal.
Cláudia diz: não acredito no pai natal. E ainda estamos em Maio

14 maio 2008

Self Portrait


Christian Schad, Self Portrait (1927)
Oil on wood, 76 x 61.5 cm. Modern Tate

Senti-me muitas vezes assim. Deitada na cama, depois de sentir nada, nem preenchida, nem que alguma coisa tivesse sido ganha. Ninguém entrou dentro de mim, não fui tocada, não senti alegria. Ficava deitada na cama, com alguém ao meu lado com a mesma indiferença. Fazem-se as coisas porque sim. Talvez porque é diferente para os homens, ou talvez não. Por solidão, porque houve a oportunidade, por acreditarmos que desta vez vai ser diferente. Por vaidade, pela conquista, porque na altura pareceu boa ideia. Uma forma de fugir ou de esquecer qualquer coisa ou alguém. Dá-se pouco, recebe-se menos, e um véu fica sempre no meio como uma barreira, e nao permite que seja mais do que o pouco que é.
As pessoas sozinhas são assim. Procuram companhia, mesmo sabendo que não vão trazer mais nada para além disso. Habituadas a não pedir nada e a não esperar nada. Ficam deitadas, apáticas. Porque desta vez podia ter sido diferente ou já a saber que era só isto e mais nada. Sem alegria, sem um sorriso. Já dias houveram em que sabiamos a diferença. Davamos muito a quem nos dava de volta. E é por isso que se sabe a diferença. Não tem sempre que ser assim. Mas cada vez mais, é só isto que esperamos. Alguém ao nosso lado que podia não lá estar. E que cada vez menos nos faz falta. Não me deu nada a não ser mais tristeza. E fico deitada na cama com ar de enfado . Não sei que mais esperava.

07 maio 2008

Fim-de-semana prolongado



Vou alí e venho já. Beber uma cervejinha morna e choca num pub, fazer um pic-nic, ir ao teatro, jantar num indiano e beber um cházinho à Tate Modern.


Volto terça-feira, depois de umas comprinhas em Oxford Street, pode ser?
É que viver no meio das vacas e em frente a uma tasca, às vezes cansa.
See you next week, my dearest readers!

06 maio 2008

Aceitação


Vivi a vida amarrada por não poder dizer o que pensava. Não era liberdade de espressão que me faltava, nem silêncios imensos que pudesse quebrar para dizer o que queria. Mas há forças muito maiores que nos impedem de falar. Saber que não era assim que devia ser, que há coisas das quais não se falam nem se sentem, estarmos todos preocupados demais a pensar para dentro para o dizer para fora. Faziam pouco de mim ou ralhavam-me. Não é assim que uma mulher se comporta. Não é politicamente correcto agir da forma como o faço. E a falta de jeito para comunicar parece ser herditária. Não comunicava com palavras nem com gestos aquilo que me apetecia. Porque não havia mais ninguém que o fizesse, e temos sempre a tendência para copiar os que nos rodeam. Somos modelados pelos exemplos que temos. Continuo a não saber dizer o que sinto e não tenho conhecimentos de expressão corporal. Mesmo estudando a teoria falta-me saber com se põe em prática. E de que adianta falar. Tudo passa, vais ver. Mas muita coisa não passou, e tudo aquilo que me apetecia dizer sai-me agora com muita falta de jeito e de forma precepitada. Porque por mais que a força de vontade esteja do nosso lado o talento é inato, e quanto a isso não há nada a fazer. Exorciso demónios, revolto-me e não me importo que possam não gostar do que agora tenho para dizer ou da forma como o faço. Porque chega uma altura em que o que guardamos cá dentro é como as recordações que temos na gaveta e que não servem para nada e só ocupam espaço que devia ser usado para coisas novas. Devemos deitá-las fora, dando uma última mirada àquilo que foi o nosso passado. Não podem ficar mais tempo fechadas. São para vir para fora uma última vez e depois queimadas. Queimo agora todas as palavras que queria dizer e mesmo ficando triste por não agradar, não as aguento mais tempo dentro aqui fechadas. Sou assim e não sei melhor.

Não sei escrever apenas de recordações agradáveis do meu passado recente. As mais antigas e dolorosas também me apetece escrever. Gostava que ninguém lesse estas palavras. Ou então, e não se mudando nada do que foi até agora, faz-se de conta que não foram escritas. Por que tudo passa vais ver. E não era isto que era suposto uma mulher como eu escrever.