06 maio 2008

Aceitação


Vivi a vida amarrada por não poder dizer o que pensava. Não era liberdade de espressão que me faltava, nem silêncios imensos que pudesse quebrar para dizer o que queria. Mas há forças muito maiores que nos impedem de falar. Saber que não era assim que devia ser, que há coisas das quais não se falam nem se sentem, estarmos todos preocupados demais a pensar para dentro para o dizer para fora. Faziam pouco de mim ou ralhavam-me. Não é assim que uma mulher se comporta. Não é politicamente correcto agir da forma como o faço. E a falta de jeito para comunicar parece ser herditária. Não comunicava com palavras nem com gestos aquilo que me apetecia. Porque não havia mais ninguém que o fizesse, e temos sempre a tendência para copiar os que nos rodeam. Somos modelados pelos exemplos que temos. Continuo a não saber dizer o que sinto e não tenho conhecimentos de expressão corporal. Mesmo estudando a teoria falta-me saber com se põe em prática. E de que adianta falar. Tudo passa, vais ver. Mas muita coisa não passou, e tudo aquilo que me apetecia dizer sai-me agora com muita falta de jeito e de forma precepitada. Porque por mais que a força de vontade esteja do nosso lado o talento é inato, e quanto a isso não há nada a fazer. Exorciso demónios, revolto-me e não me importo que possam não gostar do que agora tenho para dizer ou da forma como o faço. Porque chega uma altura em que o que guardamos cá dentro é como as recordações que temos na gaveta e que não servem para nada e só ocupam espaço que devia ser usado para coisas novas. Devemos deitá-las fora, dando uma última mirada àquilo que foi o nosso passado. Não podem ficar mais tempo fechadas. São para vir para fora uma última vez e depois queimadas. Queimo agora todas as palavras que queria dizer e mesmo ficando triste por não agradar, não as aguento mais tempo dentro aqui fechadas. Sou assim e não sei melhor.

Não sei escrever apenas de recordações agradáveis do meu passado recente. As mais antigas e dolorosas também me apetece escrever. Gostava que ninguém lesse estas palavras. Ou então, e não se mudando nada do que foi até agora, faz-se de conta que não foram escritas. Por que tudo passa vais ver. E não era isto que era suposto uma mulher como eu escrever.

1 comentário:

Salustio disse...

Estás a ver? Muito longe de serem "pirosadas" (foi essa a palavra não foi?). Escreves muito bem.

Eu também escrevo, mas tolices. Tolices das verdadeiras e convictas. Aqui, por exemplo: http://inepcia.com/

Fica o convite. Deixo biscoitos em cima da mesa.