28 abril 2008
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.
Marina Colasanti
Arrumação
Eu - Se fizer isso, não fica nada cá dentro
Ele - Óptimo, ficas com espaço para coisas novas
Mudar de vida
Às vezes sentimos necessidade de mudar de vida. Mudar de casa se não estamos a viver bem na nossa, mudar de relação se não nos sentimos amadas, mudar de país porque precisamos da experiência ou da aventura, mudar de emprego porque nos faz falta um novo desafio (ou um salário mais alto). São coisas que com mais ou menos facilidade, ou com mais ou menos força de vontade, conseguimos fazer. Por vezes é ainda mais fácil mudar de vida porque apenas sentimos necessidade de mudar de corte de cabelo, de mudar de carro, de ir para outro ginásio.
Às vezes não encontramos força de vontade para mudar. Não conseguimos por exemplo perder os quilos que temos a mais. E em vez de mudar de peso mudamos o nosso “mind set”. Mudamos a forma como pensamos que algo nos pode afectar a vida. Porque afinal os quilos que lá estão a mais não fazem assim tanta diferença. Se já não temos 20 anos, puxamos a saia 10 centímetros para baixo, um por cada ano que temos a mais. Aprendemos a gostar do que temos e aprendemos que há mais do que uma forma de mudar o que está menos bem na nossa vida. Mudamos a cor das paredes e se calhar a casa já não nos parece tão pequena. Convidamos mais amigos para lá ir e já não está tão vazia.
Mudar factores extrinsecos não me parece impossível. Pode não ser fácil e pode demorar muito tempo. E até mesmo se nunca o fizermos conseguimos pelo menos verbalizar o que gostavamos de poder mudar. Mais complicado é mudar-nos a nós e aquilo que não conhecemos. Como mudamos de vida quando não sabemos a razão para o nosso descontentamento? Quando não é o comprimento do cabelo, não é o emprego, nem o livro que andamos a ler, nem a cor das paredes ou do verniz que usamos nas unhas?
Acordamos de manhã e arranjamos força, nem que se seja a que está escondida mas que no fundo sabemos que está lá. E nos dias em que não a temos, esperamos que passe esse dia menos bom e acreditamos que a vamos ter no dia seguinte. Esperamos que um dia vamos acordar e não vai ser preciso força para mudar. Porque a mudança vai estar dentro de nós.
27 abril 2008
Estrelas de Sexta-Feira à noite
22 abril 2008
Escrever
Não sei vestir as roupas bonitas que tenho no armário de forma a agradar quem olha para mim. E da mesma forma não sei usar todas as palavras que estão no vocabulário de forma a agradar quem me lê ou quem me ouve.
20 abril 2008
Escritas antigas a arder
Dos três diários que trazia o saco, dois já arderam. O único que não tive coragem de queimar foi o que comecei a escrever quando tinha 7 anos. Os outros dois foram escritos entre os 13 e os 17 anos, uma época que gostava de apagar na minha vida, em que fui infeliz e muito desequilibrada. Não fui sequer capaz de reler o que tinha escrito. Eram coisas idiotas e deprimentes.
Queimar tudo isto fez-me aperceber que sempre gostei de escrever. Foi uma forma de terapia que usei desde pequena para me libertar das preocupações. Quando tinha 7 anos porque as minhas irmãs me batiam, quando tinha 13 porque não tinha amigas, aos 16 porque me sentia feia, desadaptada e muito desajeitada.
Para além do meu primeiro diário, salvei ainda das chamas bilhetes que eu trocava com a minha irmã, na altura em que partilhávamos um apartamento em Coimbra. Na época de exames, escrevíamos bilhetes com disparates e colocávamos na secretária uma da outra. Como este poema:
I don´t understand you
Because I don´t
But I like you anyway,
Because I do
We are sisters
Because we are
I hope you enjoy this
Because I do
I know this is stupid
Because it is.
Deitar coisas fora foi algo que aprendi ao mudar tantas vezes de casa. Quanto menos temos, mais fácil é pegar nas trouxas e mudar de poiso. Contou-me a minha mãe, que guarda as recordações apenas quando vale mesmo a pena (quadros, mobílias antigas ou fotos) que quando faleceram os meus avós, ela e os irmãos tiveram que queimar imensas coisas. Foram obrigados a fazer uma fogueira grande e ficaram horas a queimar coisas que não serviam a ninguém. Não vale a pena ficar agarrado ao passado. As únicas recordações que devemos guardar são as que nos ficam na memória. As outras, que precisam de suporte em papel, não podem ser assim tão importantes, senão não precisávamos delas para recordar.
Coisas velhas ocupam espaço que podemos usar para coisas novas. Acumulou-se pó e humidade, apenas para ter coisas que nunca mais ia ler. Vi-as agora pela última vez e fizeram-me rir um bom bocado. Não me vão fazer falta. De que vale guardar coisas do passado? Quando sei que apenas podemos viver o que está para vir.
18 abril 2008
Por falta do que dizer
1. Consultora Junior de Qualidade e Melhoria de Produtividade
2. Figurante na plateia de vários programas de televisão
3. Empregada de mesa
4. Coordenadora de Eventos e Catering
(os quatro primeiros)
Quatro filmes que posso ver vezes sem conta:
1. E Tudo o Vento Levou
2. As Asas do Desejo
3. Irma La Douce
4. Blue Velvet
(escolhi os que vejo desde miúda e nunca me canso)
Quatro sítios onde vivi:(Quatro é pouco...)
1. Espinho
2. Coimbra
3. Lisboa
4.Reading/Inglaterra
(por ordem cronológica)
Quatro sítios onde estive de férias:
1. Londres
2. Tunísia
3. Índia
4. Creta
(as que gostei mais)
Quatro dos meus pratos preferidos:
1. Massa com tudo e qualquer coisa
2. Rancho
3. Bifes de frango panados com arroz de tomate
4. Gratinado de beringela
(como até rebentar)
Quatro Websites que visito diariamente:
1. Hotmail
2. Claudipédia
3. Estado Civil
4. Miss Pearls
Quatro sítios onde gostaria de estar agora:
1. No sofá da sala da minha mãe
2. Em Edimburgo com os meus amigos
3. Fechada no quarto o dia todo
4. Num café acolhedor a ler um livro e a beber chá
(mas não posso porque tenho que trabalhar)
13 abril 2008
Os meus amigos e eu
Os meus amigos e eu. Uns encontram-se enquanto outros perdem-se.
[Ele] Tenho um amigo que há pouco mais de uma semana se sente muito apaixonado. Perguntei-lhe se andava a ver muitas borboletas e a ouvir muitos passarinhos. Respondeu-me que “daqui a pouco começo a acordar com a puta dos pássaros a cagarem-me em cima”.
[Ela] Tenho uma amiga que há uns dias me telefonou a contar como há uma semana atrás se apaixonou. Disse-lhe com falta de modéstia que “tinha que ser eu a apresentar-te um amigo para arranjares um namorado como deve ser.” Mesmo que agora lhe caguem pássaros em cima de manhã ao acordar.
[Eu] Um rapaz que conheci uma noite na rua da baixa do Porto propôs apresentar-me um amigo dele. Disse-me que lhe ia fazer bem porque andava perdido. Perguntei se lhe faltava um mapa. Respondeu-me que “não, o problema é ter mapas a mais.” Óptimo. “Devemos-nos dar bem. Sou um mapa com as indicações todas erradas. Se quiser mais um, pode perder-se comigo também.” Estava a mentir. Um mapa de ruas e avenidas enganadoras, não gosta de quem anda à procura do caminho certo.
09 abril 2008
Vandoma
Hoje, numa formação sobre coaching operacional, e em tom de brincadeira, lembraram-me da Feira da Vandoma como exemplo a não seguir na loja onde trabalho. Eu e a colega sentada ao meu lado fizemos uma viagem ao passado. Fomos as duas “vendedoras” na feira da vandoma.
Ia no comboio de Espinho para o Porto, era ainda escuro, montar no chão o meu estaminé, com algumas amigas. Procurava tudo o que fosse vendável e usado lá por casa. Roupa velha, livros repetidos,bandas desenhadas...
Cheguei mesmo a roubar discos aos meu pai. Naquela altura de transição para o CD (e digo isto para atenuar a minha culpa neste roubo, como se, por serem menos precisos, fossem menos valiosos para o meu pai, ou como se assim tivesse o direito de os levar sem aviso. Cheguei a levar um assinado pela cantora. Um album de fados, que por estar autografado, foi vendido mais caro que os restantes).
Foi com o dinheiro que ganhei na vandoma que comprei o meu casaco da tropa em segunda mão, com buracos nos cotovelos e todo aquele sarro que causou nojo à minha mãe. Um dia, no fim da feira, fui com a G. à Rua Escura, na Sé do Porto, comprar um casaco usado pelos tropas. Esse casaco está-me gravado na memória. É um simbolo daquilo que não posso esquecer que sou. Assim como as manhãs passadas na feira da vandoma, como a minha tatuagem, a minha roupa preta, os meus Cds de Mão Morta...
Lembram-me daquilo que não posso deixar de ser por mais institucionalizada que esteja agora em adulta. Lembram-me do meu lado alternativo. Afinal, e lá no fundo, não sou assim tão aborrecida.
06 abril 2008
Dormir Acompanhada
Ter sempre cuidado com quem divido o quarto. Há os que avançam rápido e são estes os que se devem eliminar primeiro. Os estranhos e de pouca confiança. Alguns ficam parados à espera. Mexem-se pouco e apresentam menos perigo. Não dão confiança, mostram-se pouco interessados mesmo quando querem “atacar”.
Não me deixo acompanhar por qualquer um. É preciso saber escolher. Não gosto quando têm pelos, nem quando são muito grandes. Só permito entrada aos mais normais e discretos. Assim durmo bem acompanhada. São-me familiares, já estive com eles antes, já partilhamos o sono numa outra vez qualquer, noutro quarto que não este. Não gosto dos sonhadores, com asas, qualquer que seja o tamanho do seu sonho. Nem dos que têm uma espécie de antenas que captam tudo. É bom saber que não estamos a ser estudadas.
Hoje deixei um entrar e ficar, até acordarmos juntos de manhã. Vai passar a noite comigo. É de tez escura, antenas pequenas e asas duras e não causa muito distúrbio. Está “estacionado” na parede ao lado da cama. Um estudo acautelado indica que não apresenta perigo algum.
Mas à semelhança de outras noites do passado, posso estar enganada. Ainda pode causar danos. Com insectos ou com vermes nunca temos bem a certeza.É um risco que decidimos aceitar de vez em quando. Para não os eliminar a todos com uma pancada seca do jornal enrolado. Nem sempre eficaz, por vezes deixa marcas e não morrem à primeira.
05 abril 2008
Raid Mata Insectos
03 abril 2008
01 abril 2008
Lida Doméstica
31 março 2008
Caixas
27 março 2008
Ter uma pérola no coração e ninguém a quem a deixar
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
Al Berto "Há-de flutuar uma cidade" (excerto)
23 março 2008
Recordações das Férias
A melhor recordação de férias que tenho é uma manta vermelha que trouxe de Creta. Foram as férias mais românticas que já tive. Foram as únicas aliás. Ele comprou uma igual em azul e durante muito tempo estiveram as duas em cima do nosso sofá.
Recordações de férias trazem saudades, e ter saudades é bom, porque as temos sempre em relação a coisas boas. Gostava de me sentar no sofá e de me lembrar daquela semana.
É esta manta também que me traz recordações da nossa separação, quando, por telefone, dividíamos o que era meu e o que era dele “Lembra-te que a vermelha é a minha, tu ficas com a azul”, dizia-lhe eu para que não levasse a que não lhe pertencia.
Mas a manta traz-me essencialmente recordações de uma semana de férias num verão quente, da loja onde as escolhemos, da senhora que as vendeu, e do restaurante onde fomos jantar a seguir.
Tenho alguns cantinhos da minha casa com recordações de outras férias. Que me trazem saudades apenas a mim, que estive nos sítios de onde vieram. Coisas pequenas mas que são muito. Porque gosto de ir de férias.
A manta vermelha agora está guardada. À espera de uma mesa para a qual vai servir de toalha, numa zona da minha casa com muita luz, onde vou passar muito tempo sentada, a ler, a comer e a pensar. A sentir saudades de muita coisa.
22 março 2008
Páscoa
A grande responsabilidade aqui consiste em conseguir manter, até lá, o saco de amêndoas de chocolate intacto.


