Um dia, que seria como outro qualquer, não tivesse acontecido de ser diferente, fizeram-me um elogio. Que me pareceu ser sentido mas que agora percebo que não é importante que não tenha sido.
E mudou-me acidentalmente. No dia seguinte fui comprar roupa interior cheia de renda, um vestido, uns sapatos, uma pulseira e uns brincos. Fui cortar o cabelo, vesti uma blusa bonita e fui pintar as unhas.
(- Que bom! - disse-me baixinho quando lhe contei na semana seguinte).
E desde então pinto as unhas semana sim semana não, das cores todas da imaginação. E ninguém vai alguma vez entender porque pinto as unhas. Até porque é obvio que quem as pinta é para as ter pintadas. Mas eu não. Eu pinto religiosamente as unhas de 15 em 15 dias para me lembrar, nem que seja apenas duas vezes por mês, que um dia que ia ser igual a todos os outros, não foi.
Senti. O mar salgado, a água quente do chuveiro, o sabor do pão acabado de cozer, o vento de Inverno do cimo da montanha, abraços quentinhos de amigos que não vemos há muito tempo, mesas de jantar cheias de conversas, camisolas de lã em dias frios e água fresca com limão em dias de sede de Verão. Vi libelinhas em voos rasantes pelas águas dos rios e senti borboletas na barriga, que subindo até aos ombros, voavam pelos braços até à ponta dos dedos dormentes. Seguiram-se dias sem precisar de dormir ou comer. Porque estava, muito cá por dentro, bem preenchida de insetos voadores.
E por isso pinto as unhas das mãos. Vejo nas pontas dos dedos, as mesmas cores que vi no dia em que alguém me disse palavras bonitas. E quero poder sempre lembrar que pode haver alguém, que num dia normal, sem que esteja a contar, me vai dizer coisas boas de ouvir. Quem sabe de que cor me vou pintar nesse dia(?) que iniciando-se para ser normal, vai terminar de forma anormal e me muda, mesmo fique tudo na mesma.
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