15 maio 2015

Sinais de Luz




Não gosto de conduzir. Causa-me ansiedade estar parada em filas de trânsito, sem saber exactamente a que hora vou chegar a casa. Não gosto de esperar em sinais vermelhos, não percebo as rotundas, ultrapassagens à tangente, pressinhas, buzinadelas vingativas. Não tenho sentido de orientação (mas eu quero ir na direcção do Porto ou de Lisboa?), não tenho noção de distância (o que não ajuda muito se quero ultrapassar um carro), não percebo as rotundas (e elas não me percebem a mim), não sei estacionar (e não me estou para me esforçar muito para aprender). Não gosto da falta de civismo, do Chico Esperto, das pessoas normais que se transformam em animais atrás do volante. Deixa-me triste a agressividade de quem tem uma vida dura e que corre mal e agora vou-te tramar porque estou dentro de um carro e não me tocas e agora não te deixo entrar na fila que eu estou primeiro e vou ganhar trinta milésimos de segundo porque não de dei o jeitinho, tivesses saído de casa mais cedo, oh camelo! E a mão que está colada à buzina, pronta a entrar em acção mal fique o sinal verde por isso não te atrevas a demorar mais que uma fracção de segundo a arrancar, vê-se logo que é gaja, quem é que se lembrou de as deixar tirar a carta. Ou o tipo do BMW que tem direito a limpar a faixa toda da esquerda porque pagou um imposto especial porque tem mais dinheiro que o tipo do Fiat, e agora a estrada é só dele mesmo que eu esteja a cumprir com os limites de velocidade. Porque os acidentes só acontecem aos outros. E eu até bebi pouco e consigo-me controlar e se tocar o telemóvel atendo porque pode ser importante.

Enfim, não gosto de conduzir mas tenho que o fazer. Cinco vezes por semana pelo menos. Para cá e para lá já faz dez vezes. Se fizesse uma medição, a estatística revelava que um terço destas vezes implica enfrentar filas de trânsito. Mas em vez de medição resolvi fazer meditação. Já que tenho que estar enfiada no meio disto tudo durante uma hora, que seja a melhor que se pode arranjar.

O percurso é sempre o mesmo. Já o decorei. Todas as entradas e saídas, as faixas mais rápidas a cada hora do dia, ora para a esquerda, ora para a direita. E em vez de me irritar decidi contemplar. Como é difícil conduzir um camião ou entrar na recta da AEP vindo da zona industrial. Observo os carros e os condutores, os simpáticos, os stressados e os apressados.

Decidi que posso usar a hora que passo presa no trânsito para ser uma pessoa melhor para mim e para os outros. E chego a casa menos cansada e irritada. Desliguei o rádio que costumava ir a berrar música para não me deixar lembrar que não queria estar ali. Tenho mais silêncio e permito que os meus pensamentos, bons ou maus, me possam lembrar que é ali mesmo que eu estou em vez de outro sítio qualquer onde preferia estar.

Hoje abri espaço para deixar entrar um grande camião na minha faixa. Vi-o colocar-se à minha frente e fiquei à espera dos meus sinais de luzes de agradecimento. Fico feliz com tão pouco. E depois gesticulei com as mão para deixar entrar um carro que vinha da zona industrial. Recebi mais sinais de luzes em forma de agradecimento.

E fui para casa devagar no meio de todos os outros carros a achar que era maior que eles todos. Porque sabia uma coisa que nem todos na mesma estrada sabem. Que há alguém que agradece gestos pequeninos e que se sentiu agradecido com semelhante pequeneza.

Fui aprendendo que até no meio da confusão, se consegue fazer reflectir uma luz.


1 comentário:

disse...

Olá

Como compreendo este teu post...
Como me identifico nele...
No meu caso deixei de andar com rádio no carro, confesso que no inicio fazia-me uma pequena confusão. Com o passar do tempo já nem me lembro que um carro tem auto-rádio!!!!!

Beijinhosssss