03 janeiro 2008

Com uma nuvem negra em cima da cabeça

Quando era pequena esquecia-me sempre das chaves de casa. A minha mãe ficava furiosa porque estava sempre a ter que me abrir a porta. Ainda por cima acontecia muitas vezes avariar o intercomunicador e era preciso descer as escadas do prédio para eu poder entrar. Ralhou imenso comigo. Até que um dia em que me esqueci mais uma vez, a minha mãe abre-me a porta furiosa: “Esta rapariga deve ser masoqusita! Começo a achar que não levas as chaves de propósito para eu te ralhar!” Lembro-me de ter ficado muito perturbada porque fiquei a achar que era masoquista. Fui para o quarto com lágrimas nos olhos. Era masoquista e fazia tudo para me ralharem, o que me causava muita ansiedade.

Continuo a achar que sou assim. Tenho um gosto mórbido pelo sofrimento e apesar de saber algumas coisas que posso fazer para o evitar, não o faço. Isto causa-me ansiedade e stress. Nervosa já eu sou que baste, não precisava de me torturar mais.

A maior parte das vezes a ansiedade é causada por um adiar constante do que tenho para fazer. Outras vezes porque tenho muita dificuldade em tomar decisões, e porque a mudança me assusta mas ao mesmo tempo sinto falta dela. Também tenho tendência para sofrer por antecipação. Sofrer pelo sofrimento que tenho receio de vir a ter. Sabendo ou não se de facto o vou sentir.

Não faz muito sentido ter necessidade de estar sempre a mudar (de casa, de emprego, de país, de ginásio...) se isso me causa tanta ansiedade. Não faz sentido e é contraditorio.

Ainda não percebi se gosto tanto de mudança pela mudança em si ou se estou a tentar fugir de mim própria. Não gosto de ser como sou, pessimista, negativa, tímida, introvertida, desajeitada e complexada. Durante muitos anos tive esperança que a mudar de cidade ou de país, podia recomeçar de novo. Ser diferente, fazer menos asneiras e relacionar-me melhor com as pessoas. Mas já me apercebi que mesmo mudando geograficamente, eu continuo na mesma.

Sei que estou melhor do que era. Já não espero sempre o pior, sei que quando faço uma asneira, as consequências nem sempre são tão más como eu imagino, e também sei que mesmo quando me sinto gorda e feia, não posso esconder-me em casa ou debaixo da túnica do Demis Roussos. Há mesmo quem goste de mim assim. Mesmo com estas melhorias, começo a ver os cabelos brancos e as rugas que o estado constante de ansiedade me estão a causar. São raros os momentos em que me sinto descontraída e abstraída da minha própria presença desconfortável.

O último dia do ano passei-o a lembrar-me de todas as coisas que correram mal. Mesmo que as coisas boas fossem em maior quantidade. Passei o primeiro dia do ano a pensar em todas as coisas que podiam correr mal em vez de me lembrar das coisas que certamente vão correr bem. Sou masoquista e tenho medo de deixar de sentir medo.

6 comentários:

Anónimo disse...

isso passa:)

Anónimo disse...

Se ajuda eu também sou bastante negativista, mas assim quando as coisas correm bem (ok raras as vezes)eu fico muito mais feliz....
É tolice mas eu vejo sempre mal e tenho medo de tudo, e nunca tive uma pequena parte da tua coragem em mudar o quer que fosse.....

Anónimo disse...

Identifico-me com muito deste teu post... a relação amor-ódio c a mudança; o andar a adiar as coisas p depois ter de andar a correr no ultimo minuto; a constante analise dos pontos negativos... no entanto acho q com o passar dos anos aprendi q a mudança é boa mas não indispensável e q nada melhor do q respirar fundo e controlar o stress. Mas acima de tudo fui aprendendo a não ser a minha maior inimiga, a aceitar os defeitos e as qualidades e não tentar analisar nem compreender tudo... a nuvem negra só lá está se a pusermos...:-)
BOM ANO!!

Midori disse...

Ler o teu "desabafo" é assustador (imaginas porquê), mas o que te quero dizer e pelo que te quero elogiar, é pela tua notável clareza em relação a ti própria e o despudor com que afirmas cada palavra que escreves. Não te vou falar de mim, não vou sequer presumir que poderia deixar qualquer tipo de conselho porque além de achar que não sou a pessoa mais indicada para isso, acredito profundamente que não é disto que se trata este teu blog, e vendo como te expões despudoradamente e sem falsos realismos, faz-me pensar que estás a mil anos de luz de mim, que é como quem diz, bem mais à frente! :)
É bom partilhar, sim, mas acho que ao dares tanto de ti assim estás como que a "falar cotigo própria", a desabafar e não própriamente à espera de soluções mágicas que sabes obviamente que não existem. Posso no entanto dizer que te desejo do fundo do coração aquilo que pedi para mim neste Novo Ano - paz de espírito. ;)

Bjs :)

(Joaninha)

Cláudia disse...

Margarete: Bom ano para ti também! E obrigada pelas visitas ao meu blog.

Midori: Obrigada. E de facto, não estou à espera que me dêm soluções mágicas para os meus problemas. Escrever sobre isso já é terapia suficiente. Paz de espirito era muito bem vinda....

Laredo disse...

Não é comum encontrar por aí pessoas, a exporem de forma tão clara e aberta, as suas características menos desejadas ou mais problemáticas, ainda por cima a divulgarem a sua própria imagem, ainda que em formato reduzido.
Mesmo que fazendo parte dum processo de terapia, há que reconhecer a garra e a coragem.
Parabéns!
Não me parece que ousasse ir tão longe, em relação à minha pessoa, caso fosse esta a via encontrada.

Foi essa abertura e coragem que me atraiu a atenção, quando há uns meses, por acaso, passei por aqui. Desde então, volta e meia dou por cá um salto.
Outro factor que me fez voltar, foi ter ficado com a impressão que terias qualquer coisa em comum comigo. Ou pelo menos com aquilo que fui durante muitos anos, apesar de que coisas há, que ainda permanecem.
Neste teus posts dos ultimos dias, confirmou-se.

Outra coisa que me surpreende pela positiva: a tua autoconsciência. Há muita falta disso por aí.

Como já alguém comentou, é fundamental aceitares-te como és. Não adianta nada a autocrítica destrutiva. Há uma tendência para fazer-mos uma constante comparação do que nós somos e como funcionamos com os padrões ditos normais, e muitas vezes não percebemos ou aceitamos o facto de nos desviarmos um pouco do "estabelecido", gerando conflitos internos. Mas cada um tem as suas necessidades específicas, originando comportamentos e receitas próprias. Têm que ser aceites, embora muita coisa se possa mudar voluntariamente se houver força de vontade.

Acima de tudo cada qual tem que aprender a viver consigo próprio, às vezes só lá vai com o passar dos anos.

Seja como for, tenho a certeza que estás no bom caminho.