Não gostos de hotéis. Não gosto da decoração impessoal, de ter alguém a abrir-me a cama e pôr um bombom na almofada. São sítios sem carácter.
Quando tinha 25 anos apercebi-me que já não suportava camaratas de pousadas da juventude. Foi em Belfast, num quarto onde dormi num beliche, partilhado com 3 gordos bebados que não lavavam as meias há vários dias. Desde essas férias, decidi que tinha que ter um quarto só para mim. Continuei a pasar férias em pousadas de juventude, com um quarto individual mas sem casa-de-banho. Foi assim em Londres e em Dublin. Mais uns anos passaram e a necessidade de sossego fez-me passar a reservar quartos em pensões.
Guardo de todas as férias recordações dos sítios onde fui dormindo. Como o quarto com carpélio azul turquesa e paredes rosa no Lake District e a coleção de memorabília da família real na Ilha de Skye. No Reino Unido encontramos as pensões mais inacreditáveis. Piroso mais piroso, não há. Mas é familiar, têm chá e bolachas em todos os quartos e senhoras gordas com caracóis louros pintados na recepção. Um toque sempre muito pessoal.
Detestei Paris e não consegui perceber porque é considerada uma cidade muito romântica. Mas os meus vizinhos de quarto de pensão de uma estrela na Rue Oberkampf, todas as noites me fizeram lembrar, através das paredes finas como folhas de papel, com sons do amor, tive que admitir que talvez eu é que estivesse errada. Só eu não tinha visto o romanticismo da cidade.
Estas pensões com preços da mesma grossura das paredes ensinam-nos muito sobre as cidades que visitamos. Como as baratas que me subiam pelos braços durante a noite em Deli no Hotel palvi, ou o cheiro a tabaco impregnado nos lençois da pensão Beira Minho na Praça da Figueira, em Lisboa.
Da janela do Hostal Luis XV vejo os telhados de Madrid se olho para cima, e as prostitutas na rua, se olho para baixo. O rapaz na recepção pergunta-me se já acabei de jantar, quando me levanto do sofá, amassando o saco de papel que embrulhava o bocadillo de jambon.
- "Sim. Já acabei"
- "Buenas noches"
- "Buenas noches"
São assim as pensões onde fico a dormir. O recepcionista faz-me companhia silenciosa enquanto janto. Ele sabe que é melhor jantar na recepção a ver os hóspedes a entrar e sair, do que sozinha no quarto.
Ainda bem que não gosto de hóteis de luxo. Porque não os posso pagar e porque há coisas que não se pagam.
1 comentário:
ola claudia.eu ja mandei um comentario mas nao sei se o recebes-te pois ainda nao estava resgistado.eu só te quero dizer que nunca conheci pessoalmente ninguem como tu.os teus pensamentos sao deveras extraordinarios.por favor continua a escreve-los,pois eu vou continuar a ler e a admirar-te cada vez mais.beijinhos.jorge.
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