01 dezembro 2007

Não saber o que sentir

Uma tarde tocaram à campainha. A minha mãe cozinhava qualquer coisa enquanto eu desenhava na sala. Tinha sete anos e o mais provável era estar a fazer os trabalhos de casa. A minha mãe abriu a porta ouvia-a falar com a vizinha. Fechou a porta e sentou-se ao meu lado. A minha professora da escola primária tinha morrido. A minha mãe deu-me a notícia com o braço nos meus ombros, sentadas no sofá. Mas alguma coisa queimava numa panela da cozinha e ela saiu a correr.

Fiquei sozinha na sala, com as mão debaixo dos joelhos, a olhar para o chão. Não sabia se era normal ter vontade de chorar. Nunca me tinham explicado o que era suposto sentir quando se vai embora alguém de quem gostamos mas que não faz parte da família, e tive vergonha de chorar. Segurei as lágrimas, com um nó na garganta. Quando a minha mãe voltou eu continuei a olhar para o chão porque não fui capaz de mostrar que tinha vontade de chorar. Não sabia o que sentir.

Numa situação bastante diferente, voltei a sentir-me assim hoje. Sem saber o que é suposto sentir. O que sentem os outros na mesma situação. Chorei. Só consegui segurar as lágrimas até chegar à minha secretária. Fechei a porta do escritório e chorei um bocadinho. Esfreguei a testa com a ponta dos dedos, repirei fundo e continuei a trabalhar.

Agora estou em casa sentada na cama a olhar para o chão. Sou adulta, mas continuo a não saber o que sentir.

6 comentários:

Bruno Ramalho disse...

quando a minha avó morreu, era eu míudo, aconteceu-me o mesmo... não és a única... ainda hoje me baralho um bocado com os meus sentimentos e a morte... o_0

*

Cláudia disse...

só queria dizer q não morreu ninguém...

o motivo era outro...mas q me confundiu da mesma forma...

Bruno Ramalho disse...

é válido à mesma...

Vespinha disse...

A minha primeira lembrança da morte foi quando tinha 9 anos... Lembro-me perfeitamente de estar a sair das aulas e ver a minha mãe ao longe. Tive um mau pressentimento e, quando ela me disse que a minha tia estava muito doente, perguntei-lhe logo se tinha morrido. Dos dias seguintes lembro-me de tudo: da família a sair e a chegar do funeral, de eu ficar em casa com uma empregada a contar-me histórias, de olhar para o meu irmão e só pensar em como a minha tia gostava dele...

Anónimo disse...

Infelizmente o sentimento de perda de alguem tem estado presente em varias fases da minha vida desde a D. Gloria, Avos Maternos, Bisavos Maternos, Tios, Amigos e Avós Paternos. O sentimento é sempre o mesmo um nó enorme na garganta e um choro incontrolavel quando estamos no momento da despedida. E a dor que se prolonga quando pensamos neles e quando os recordamos.
Quanto ao outro motivo de chorar realmente não é uma situação nada confortavel, nunca passei por esse motivo, sempre tive do outro lado, e acredita que do outro lado há um sentimento de raiva, mas ao mesmo tempo no meu ponto de vista quando se fecha uma porta abre-se uma janela e quando se muda é sempre melhor, por isso não chores muito, a raiva passa...

Sara do Paço

Anónimo disse...

claro que aos sete anos não sabemos o q isso significa. è o vazio da alma, o querer e dever sentir e não sentir..o não sentir nada, mas sentir a perda. lembro-me que comigo foi assim. Mas continuo a sentir o mesmo...nada, nos outros casos tão dispares da minha vida.
A Sara do Paço tem razão, when God closed a door, somewhere opens a window.