Sempre gostei de escrever e-mails muito longos aos meus amigos. Adoro falar sobre mim e sobre a minha vida. É um assunto que me interessa e sobre o qual tenho sempre qualquer coisa a dizer. Deve ser por isso que quando, numa entrevista de emprego, me fazem a pergunta “Fale-me de si”, eu esboço um sorriso e penso “esta gaja está fudida” . Eu sou capaz de falar ininterruptamente sobre mim durante 45 minutos (e se calhar é por isso que estou desempregada – quem é q quer uma egocêntrica como colega de trabalho?). Se me pedem para falar sobre a evolução do preço do barril de petróleo, aborreço-me e até sou capaz de dizer q agora “deve estar por volta dos 5 euros”. São coisas que desconheço e que não me interessam. Agora, a mim própria, conheço eu bem e é tema que merece muitas horas de dedicação e reflexão (mesmo as horas em que devia estar a dormir).
Quando fui para a Inglaterra, faz agora 4 anos e 4 meses, escrevia crónicas. Para não perder contacto dos meus amigos e para que soubessem o que andava a fazer naquela cidade (Reading) que era uma das localidades mencionadas num livro entitulado “Britain´s worse shit holes”, ou algo semelhante. Tentava pôr-lhes algum humor para não aborrecer o leitor. E avisava sempre que quem não tem tempo para patetices, podia não ler o email, que não perdia grande coisa.
Durante 3 anos nunca mais escrevi crónicas. Só as consigo escrever quando me sinto feliz. De contrário, saem-me negras. E para desgraças, basta ver a hora e quinze minutos de notícias com que os canais portugueses nos fustigam todos as noites à hora de jantar.
Estou de volta a Portugal. Fartei-me de ver o tempo a passar e achei que em Portugal ia ter uma vida mais a sério (o que quer que isso seja). Mas voltei a Portugal com o Síndrome Imigrante – Lá Fora É Tudo Melhor. Ando-me a passar violentamente da cabeça. Só me restam os pequenos consolos que este país me proporciona e que infelizmente só dão satisfação temporária de curta duração: lanchar uma meia de leite morna e escura com um croissant, beber finos a um euro, ver passar machos latinos de cabelo compridote e pele cor de azeitona, comer folhados de carne ao almoço, sentir o sol aquecer-me as costas.
Começo a duvidar que consiga ser feliz aqui também. Ando a descobrir que o motivo da minha infelicidade não era geográfico.
Queria dedicar a minha primeira crónica lusa aos meus amigos que, se calhar sem se aperceberem, tomaram conta de mim neste primeiro mês. Não sei o que tería feito sem esses miminhos.
Para deixar de receber estas crónicas por favor faça reply e escreva “Não Tenho Tempo Para Estas Merdas” no campo do assunto.
4 comentários:
Miuda, ja tinha saudades de te ler assim! Continua....
a cláudia é fixe!
Sim! sim! concordo com os posts, faço minhas as palavras do ressalbiado e da martia.
Gostei do blog e já adicionei aos favoritos!
Pois cada um de nós quando chegou sentiu-se assim, caido de paraquedas!
Igualmente curioso é a cenas das crónicas: eu escrevia letras e letras a fio, contava as aventuras de desventuras na america do sul. Havia quem as vivia como se lá estivessem, havia invejosos, havia insultos... só não havia blogs, era tudo por email :)
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