08 junho 2015

O Meio

Um dia a minha mãe contou-me uma história depois de vir do cabeleireiro. Contou-me que a menina que lhe lavou o cabelo era muito bonita. Contou-me também que disse ao cabeleireiro "Aquela menina é tão bonita, devia ser modelo". Respondeu-lhe com um grande sorriso que era a mulher dele. E que sim era muito bonita e era modelo. Disse-me a minha mãe que não ficou minimamente atrapalhada. Que já está numa idade em que pode fazer estes comentários sem que a interpretem mal. Que já pode dizer muitas coisas sem que a levem a mal.

Quando somos novos somos fantástico a ser nós próprios, quando somos velhos somos fantásticos a ser nós próprios. O problema está no meio, é essa a parte problemática. São os anos em que temos que socializar, temos que nos acomodar e adaptar.

Diz também a minha mãe que tem sorte em ver crescer os netos, que os vê agora com olhos diferentes de quando era mãe. Eu acho que a sorte é toda minha. De ver a minha mãe com a minha filha, ambas a serem elas próprias. Sem complexos de inferioridade ou superioridade. Têm apenas interioridade.

E aqui está o segredo de sabermos que estamos bem quando somos nós próprias. Nem melhor nem pior que ninguém. Somos únicas, cada uma de nós. Há a percepção que os outros têm de nós e há a necessidade que temos de nos aceitarem. Nunca vamos deixar de ser "percepcionados"pelos outros. Mas é importante sentirmo-nos livres dessa percepção.

As pessoas não reparam tanto em nós como poderíamos pensar. As crianças nem pensam nisso e o mais velho perspicaz aprende isso com o tempo.

Humildade não é pensarmos menos de nós, é pensarmos menos sobre nós.

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